3.6.15

JATO DE ÁGUA, PRECONCEITO E TRUCULÊNCIA NA UERJ! REITOR EXPÕE ESTUDANTES E MORADORES DA COMUNIDADE METRÔ-MANGUEIRA A VIOLÊNCIA

DANIELA ABREU - 


Entre crises e manifestações, surge uma ação inadmissível. No dia 28 de maio a UERJ foi palco para uma das mais autoritárias atitudes ocorrida dentro de um campus Universitário, remetendo-se aos duros tempos da Ditadura Militar. Ação assustadora e incoerente com a trajetória de uma universidade conhecida pelo seu caráter popular e de atuação com as comunidades do entorno. 

Enquanto estudantes participavam de uma assembleia no campus do Maracanã, ao lado a comunidade Metrô- Mangueira sofria sua remoção pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Após a derrubada das casas, moradores indignados ocuparam as duas pistas da Av. Radial Oeste. Os estudantes se dirigiram para lá visando apoiar os moradores e protestarem contra as remoções. 

O ato que era pacífico foi logo atacado pela guarda municipal e por muitas bombas da polícia militar. Todos os que se manifestavam correram para a UERJ certos de um refúgio onde a Polícia não teria o direito de entrar. Mesmo após a entrada no campus, policiais continuaram jogando bombas que atingiram parte do estacionamento. Estudantes e moradores da comunidade removida ao tentarem entrar foram recebidos por uma atitude truculenta, onde portas foram fechadas, jato d’água jogado em cima dos manifestantes, ameaças e socos. Muitos seguranças estavam vestidos a paisana e tinham um cassetete de madeira nas mãos e pedras as quais foram arremessadas nos estudantes. O horror permaneceu por horas chegando, levando ao caos, muitos estudantes agredidos reagiram, mas o ápice do preconceito e do ataque aos direitos humanos foi quando seguranças espancaram e levaram preso para uma sala um estudante negro, Rafael da Geografia. 

No lugar de desculpas por tal arbitrariedade e ataque a democracia o reitor Ricardo Vieira Alves culpabilizou os alunos e condenou o apoio aos moradores removidos, chamando esta de uma “associação perigosa”. Sua declaração visou criminalizar os manifestantes e transformar moradores desalojados de suas casas em bandidos. Essa colocação preconceituosa não condiz com um dirigente da Universidade mais popular do Rio de Janeiro. Essa está longe de ser a visão acadêmica predominante em uma universidade que tem sua história marcada por milhares de projetos sociais com todas as favelas do entorno. Foram anos de ensino, pesquisa e extensão dedicados a intervenção direta na sociedade. A pesquisadora e professora adjunta do departamento de sociologia Lia Rocha declarou toda sua indignação.

Como professora e como pesquisadora a reação dos seguranças, a partir de ordens da reitora, e a posterior nota do Reitor justificando o fato são chocantes. Em uma universidade como a UERJ, que tem orgulho de sua política pioneira de cotas e seu perfil popular, que a instituição use mangueiras contra estudantes e manifestantes com a justificativa que eram moradores de favela e, portanto "estranhos à Universidade" é inaceitável. Se o reitor da UERJ não sabe aqui os "favelados" entram pela porta da frente, são nossos alunos e alunas. Ele foi tão truculento quanto a Polícia Militar que estava do lado de fora reprimindo manifestantes na justa luta contra a remoção da favela Metrô Mangueira. A UERJ é uma universidade aberta à sociedade, jatos d'água em estudantes e manifestantes não nos representam.”.
(Professora Lia Rocha do departamento da Sociologia da UERJ) 

As universidades brasileiras são parte intrínseca da história do Brasil. Hoje essas páginas são escritas com uma grave crise financeira imposta pela lógica do capital. A opção pelos rumos econômicos direcionaram as ações que serão sofridas por todo sistema de ensino.  O corte de verba que impacta todas as universidades Federais no Brasil atinge também a UERJ e outras universidades estaduais. Compreender que a crise é uma opção política, um mecanismo de não permitir a real crise do capital. Ao esgarçar a opção por uma política econômica baseada nos commodities, banqueiros, latifundiários, exportadores de minerais, não podem pagar pela crise. Quem paga? 

A ASDUERJ propõe uma abertura imediata de diálogo e acredita que a crise deverá ser resolvida em conjunto com todos os setores da universidade. A associação acusa a reitoria de intransigência e antidemocrática também na hora das negociações. Entre muitas propostas está uma comissão que estude os impactos econômicos com um possível aumento para docentes e funcionários. Lamentam que toda a postura atual é de não negociação e de violência física. 

Embora o ápice de tal postura antidemocrática tenha ocorrido no dia 28, Todos testemunharam a violência ocorrida contra pais e alunos que protestavam contra as condições do Cape UERJ (Colégio Aplicação da UERJ). 

A sociedade brasileira conquistou nos últimos anos avanços fundamentais para a democracia, como a união de homo afetivos, mas paralelo uma reação conservadora produziu muitas atitudes que ferem o Estado Democrático de direito e semana passada foi a vez da reitoria da UERJ registrar em suas paredes a violência externa da polícia militar e interna produzida por seguranças que cumpriam a ordem do próprio reitor. 

Novas páginas deveriam aparecer escritas nessa história, onde os direitos do aluno Rafael da geografia sejam restabelecidos. O diálogo se restabeleça para os que vivenciam o cotidiano da universidade e fizeram desta uma renomada e comprometida universidade. Que jatos de água, preconceito e intolerância nunca mais sejam lançados da UERJ em estudantes nem em moradores das favelas.