Via Strategic Culture -
Os EUA sempre fizeram de tudo para enfraquecer a Rússia. Conseguir meter uma
cunha entre Rússia e União Europeia é missão prioritária. Mas a Crimeia e a Ucrânia
frustraram os planos. Atada na crise ucraniana, a Europa começa a suspeitar de
que não lhe interesse muito seguir as políticas dos EUA e dá os primeiros
sinais de interesse em desescalar o confronto com a Rússia. ‘O Grande Motin’,
pode-se dizer, está amadurecendo, embora a ‘revolta’ não implique muito mais
que se separar de algumas iniciativas dos EUA...
Parece que Bruxelas vai deixar partir a Ucrânia, sem escândalos. O frenesi
revolucionário já passou, e a UE não dá sinais de interesse em tomar qualquer
medida anti-Rússia. O Kremlin fez-se ouvir, e gradualmente a Europa começa a
ouvi-lo. A Rússia assumiu a iniciativa diplomática, não dá sinais de muita
preocupação com o que digam os EUA e, além disso, a Rússia assumiu posição
muito mais consistente, insistindo num diálogo de todas as regiões da Ucrânia como
instrumento para administrar a crise. As esperanças ocidentais, de que Moscou
reconheceria, pelo menos indiretamente, o governo ilegal de Kiev vão-se frustrando.
A Rússia entende que os esforços para a
paz, que visam a pôr os putschistas de Kiev também na mesa de negociações, em
vez do recurso a medidas coercitivas, é o objetivo a ser buscado; e em
cooperação com as estruturas euro-atlânticas.
O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, convocou as
autoridades em Kiev a tomar medidas urgentes para construir um diálogo nacional
com todas as forças políticas e as regiões na Ucrânia. Para ele, todos os
atores externos, inclusive Bruxelas e Washington, devem empurrar as autoridade
ucranianas para que assumam a responsabilidade pela situação e iniciem um
diálogo, com a participação de todas as partes interessadas na Ucrânia. Todas
as regiões devem participar nas conversações.
A posição é clara. Todos sabem que os EUA temem um movimento civil no
sudeste
da Ucrânia. Uma milícia esfarrapada de fantoches norte-americanos se
apossou do poder na Ucrânia. O objetivo de Washington é eliminar
qualquer oposição ao
seu projeto. A Casa Branca parece disposta a fingir que não vê metade,
pelo
menos, da população da Ucrânia. E já foi longe demais nessa via, ao
mesmo tempo
em que empurrou a Europa na direção do alto risco de envolver-se numa
guerra
civil, e ao lado dos golpistas.
O que se tem, é que a política de Obama
para a Ucrânia resume-se a algumas manipulações toscas, com objetivos imundos,
influenciada pelo confronto global com a Rússia. O campo de batalha
caminhou, do Oriente Médio, para as fronteiras com a Rússia. A União Europeia e
a OTAN não apoiaram a intenção de Obama de atacar a Síria. Não há dúvidas de
que a razão prevalecerá em Bruxelas.
Barack Obama tenta agora acalmar os europeus, dizendo que o mundo está mais
seguro quando EUA e Europa mantêm-se lado a lado. Foi o que disse no final de
março, quando a Europa vivia em pleno choque, depois de tomar conhecimento da
opinião de Victoria Nuland, que não deixou dúvidas de que prefere a mediação da
ONU, à da União Europeia. Foi bem clara: “Acho, para ajudar a colar essa coisa
toda, melhor a cola da ONU e, você sabe, a União Europeia que se foda.” Por
que, depois disso, a União Europeia continuaria a seguir a orientação do
Departamento de Estado? Obama disse que a Europa é o mais próximo parceiro de Washington
no cenário mundial e que a Europa é a pedra fundamental do engajamento dos
norte-americanos com o mundo. Difícil saber o que pensam os EUA, então, dos
seus outros parceiros menores. Os EUA têm modo bem estranho de definir
parcerias ‘próximas’.
A Agência de Segurança Nacional dos EUA continua a manter
centenas de altos políticos europeus sob vigilância ininterrupta. Só resta a
Obama manifestar simpatia, compaixão. Espionagem, chantagem, ameaças e
provocações – eis o padrão corriqueiro da diplomacia dos EUA na Europa. Nem
surpreende que o continente não esteja dando sinais de estar muito satisfeito
com a política ofensiva do parceiro transatlântico.
É tudo desarranjo e confusão em Washington, como na Ucrânia. Não raro, o
Departamento de Defesa vê as coisas de um modo, e o Departamento de Estado, de
outro. O Congresso cuida de remar a própria canoa. O presidente sobe no muro,
ou tenta correr com os cavalos e caçar com os cães, em vez de cuidar de definir
claramente suas políticas. Não é por acaso, que tantas decisões de Obama andam
na direção contrária à boa lógica: é reflexo de sua extrema irritação contra o
resto do mundo externo à sua bolha.
É o Afeganistão, que teima e teima, e não assina aquele acordo colonialista. É
o Irã, que passa sem tomar conhecimento delas, por todas as provocações; e
avança firme e consistentemente na direção de uma solução diplomática para o
problema nuclear. É o governo legal e legítimo da Síria, que não ‘desce’ nem se
deixa derrubar; e nada de ‘mudança de regime’, por lá. É Israel e a Arábia
Saudita, que se vão afastando do domínio pelos EUA. E, agora, é a Ucrânia –
país sobre o qual os políticos norte-americanos não sabem nem o b, a, ba – e
onde se meteram enlouquecidamente, fazendo deles mesmos motivo de piada em
todo o mundo. Nenhum desses eventos
passa despercebido, na Europa. A Europa está vendo tudo isso.
A verdade é que a Europa está dividida. Os britânicos mantêm-se fiéis às
táticas de fazer alianças temporárias, uma aliança para cada problema. Mas no
caso da Ucrânia, Washington aceita qualquer aliança com qualquer um que se
posicione contra a Rússia. Mesmo que, em vez de grandes aliados, só encontre
fantoches: por exemplo, os Estados do Báltico, ou o governo da Geórgia. As
declarações anti-Rússia desses governantes são frases perdidas no passado. E,
além do mais, os Estados do Báltico cuidam para não ir longe demais: sabem
perfeitamente que o equilíbrio militar regional pende a favor de Moscou.
A recente resolução sobre a Ucrânia adotada pela Assembleia Parlamentar do
Conselho da Europa [orig. Parliamentary
Assembly of the Council of Europa (PACE)] parece ter sido urdida por seres
extraterrestres.
A resolução ‘declara’, por exemplo, sem qualquer prova, do nada, que a Rússia
planeja agressão militar não provocada contra a Ucrânia. Na sequência, os
representantes da Geórgia foram os primeiros a propor aquela Assembleia
Parlamentar suspendesse a Rússia da sua condição de membro. Ora! A Rússia paga
4% do dinheiro que sustenta aquela Assembleia Parlamentar: é um dos cinco
principais mantenedores do orçamento da PACE!
A parte boa é que os representantes da Rússia, agora, podem ignorar a
Assembleia e tudo que se diga ou discuta-se ou decida-se naquelas sessões. Seja
como for, é mais que hora de a Rússia separar-se de um fórum que só tem feito distorcer
as políticas russas para a Ucrânia.
À União Europeia só restou a via de alistar-se ao lado da Rússia, se quiser
equacionar e resolver a questão da Ucrânia. Moscou sabe que o “velho continente”
não tem voz de líder ou presidente que fale por toda a Europa, com o qual seja
possível discutir alguma coisa. Portanto, para começar, os europeus têm de
aprender a falar como uma única voz. Não é fácil. A Grã-Bretanha tem visão
própria sobre o próprio ‘excepcionalismo’. A França, idem, também tem sua
própria visão sobre o próprio ‘excepcionalismo’. Alemanha, Polônia, sempre a
repetirem que têm “papel especial” a desempenhar... Até aqui, qualquer ideia de
a União Europeia participar de conversações sobre a Ucrânia é ideia
absolutamente abstrata. Os europeus só querem esquecer – e já esqueceram – que
foi movimento para a integração da Ucrânia na Europa que disparou toda a
confusão em Kiev.
O melhor que uma delegação europeia pode fazer é fingir que acredita que todos
acreditam que a União Europeia tem posição unificada sobre a Ucrânia. Mas...
não é posição que interesse à Alemanha – porque a Alemanha quer superar a crise
na Ucrânia, mas sem que isso arranhe suas relações com a Rússia. E quer
preservar, também, seu domínio sobre o Leste da Europa (e sabe que não
conseguirá isso, se não cooperar estreitamente com os norte-americanos).
É hora de os políticos europeus ainda capazes de liderar alguma coisa,
começarem a agir com independência –, e criticarem as políticas dos EUA, sob o
prisma de seus próprios interesses, caso a caso.


