14.4.14

CARLOS LACERDA COMPLETARIA 100 ANOS HOJE. AMADO E ODIADO, PERSONAGEM DE UMA ÉPOCA, COMPLETAMENTE ESQUECIDO. MORREU MUITO MOÇO

HELIO FERNANDES -

Foi um combatente nato. Podem dizer dele o que quiserem, contra ou a favor, mas não podem negar a palavra. Podem até interpretá-la, para o bem ou para o mal, só não podem negá-la. Mas apesar de ter sido o personagem de uma época, não saiu, pelo menos até agora o registro do nascimento e morte. E o centenário, data mais do que razoável para lembrar. Nem é necessário ressuscitá-lo, apenas fazer jornalismo.

Em 1931, Pedro Ernesto foi o primeiro prefeito eleito do então Distrito Federal. Grande personagem, administrador notável, foi injustiçadíssimo por Getúlio Vargas. O prefeito era tido e havido como candidato a presidente, se houvesse sucessão nos tempos de Vargas.

Este, como sempre, burlou a Constituição, enganou o povo, devia convocar eleição direta, logo depois da Constituição de 1934. Frustrou o povo brasileiro, se “elegeu” indiretamente, marcou a direta, que também não faria, para 1938. E perseguiu Pedro Ernesto. Acusando-o de “comunista e de ter participado da intentona de 1935”.

Lacerda outro “presidenciável” também injustiçado, sem eleição

30 anos depois, em 1961, Lacerda se elegeu governador do então Distrito Federal transformado em Estado da Guanabara. Foi e é até hoje o mais importante governador eleito. Mas como Pedro Ernesto, não chegou a presidenciável, pela razão muito simples de que para eles não houve sucessão.

Antes dos 18 anos a polícia perseguia Lacerda

Estava no primeiro ano da Faculdade de Direito, não passou daí. Por dois motivos. Não tinha muito interesse em se formar, e precisava ir para Valença, onde a polícia não chegava. Era a casa do Ministro do Supremo, Sebastião Lacerda, avô dele e grande influencia na sua vida.

Lacerda ficava meses lá, devorando a magnífica biblioteca. Vinha raramente ao Rio, voltava para Valença e a cidade de Comércio, hoje Sebastião Lacerda. Um dos melhores livros de Lacerda, tem precisamente esse título: “A casa do meu avô”. Maravilhoso. Impresso em tamanho grande, mil exemplares, distribuídos para amigos.

Tal o sucesso, que lançou em tamanho normal, repercussão total e absoluta.

O ativista, o político, o intelectual, o jornalista, 63 anos de lutas

Não coloquei em ordem, mas o ativista surgiu em primeiro lugar na sua vida. Antes dos 18 anos já polêmico, se envolvia numa discussão pública, “se era ou se não era comunista”. Muitos diziam que era, outros que não. Quando fui diretor da Manchete, ao contrário da revista O Cruzeiro, fazia muitas reportagens com duas ou três páginas. No Cruzeiro, preferiam reportagens com 12 e até 14 páginas.

Os generais da imprensa

Fiz reportagem com esse título, traçando o perfil de todos os importantes donos de jornais. Sobre Lacerda, entre outras coisas, escrevi: “Começou como membro da Juventude Comunista, não se sabe se chegou a entrar para o partidão”. 

Me mandou carta: “Tinha ligações de amizade com membros da Juventude, mas nunca me filiei. Quanto ao partidão, jamais pensei em participar dos seus quadros”. Publiquei, claro, pode ser facilmente encontrada na Biblioteca Nacional.

Em 1945, “cobre” a Constituinte para o Correio da Manhã

Foi quando o conheci e a Juscelino. Lacerda escrevia na segunda página do jornal, com o título: “DA tribuna da imprensa”. Enchia praticamente a página inteira, às vezes sobre política internacional, era uma das suas predileções. Logo depois de promulgada a Constituição deixou o jornal, passou a escrever no Diário Carioca. Não era a primeira vez.

A entrevista com José Américo, derrubou a censura e a ditadura

Em 1943 surgiu o “Manifesto dos Mineiros”, a ditadura embalançou. Mas Vargas reforçou a censura. Em 1944, já criada, (não oficialmente) a UDN, decidiram publicar entrevista com José Américo, homem de grande repercussão, chamado de “vice Rei do Nordeste”. Por que José Américo? É que em 1936, usando Benedito Valadares, Vargas abriu “sua sucessão”, uma farsa, como sempre.

José Américo foi lançado candidato da situação, e Armando Salles de Oliveira, genro do doutor Julio Mesquita e interventor em São Paulo, candidato da oposição. Não houve eleição, claro, surgia a ditadura ostensiva do Estado Novo.

A entrevista, sensacional

Lacerda estava com 30 anos exatos, foi incumbido de fazer a entrevista, que sairia no Diário Carioca. Como é impossível manter segredo, Vargas soube, começou pressão e perseguição colossal contra o jornal. 

Horácio de Carvalho não tinha condições, mas Paulo Bittencourt se apresentou para publicar a entrevista. Foi um estrondo. Vargas sentiu o golpe, mas não “sentiu” que estava no fim. Tentou reagir mas não demorou muito.

Vargas chamou seu Chefe da Casa Civil, Lourival Fontes, um dos homens mais cultos e mais bem preparados intelectualmente, mas sem nenhum caráter, deu a ordem: “Tire os censores das redações e convoque todos os donos de jornais para uma reunião aqui no Catete. Não quero falar com eles, você mesmo, informe: não haverá mais censura, os donos dos jornais serão responsáveis por tudo o que sair. “Essa autocensura”, pior do que a ação do lápis vermelho dos censores.

Começa a carreira política fulminante

Em 1947 se candidata a vereador pelo Distrito Federal. Eram 50. O Partido Comunista elegeu 19, o PTB 12 a UDN 11. Os outros 8 divididos entre partidos pequenos. Foi uma Câmara Municipal extraordinária, eu ia lá todos os dias. Que debates, que divergências, nenhuma hostilidade nem acusações, eram alguns dos melhores oradores e uma época do Partido Comunista inteligente.

A cassação do Partidão

Em 1948 o Partido Comunista deixou de existir oficialmente, todos perderam os mandatos. Mas ninguém foi preso. O grande Sobral Pinto, advogado de Prestes em 1936, e depois grande amigo dele, avisou-o com antecedência, foram para a clandestinidade, era o que faziam de melhor.

Lacerda e Adauto Cardoso renunciaram. E confessaram: “Sem os comunistas a Câmara Municipal não tem o menor interesse ou atração”. Um ano depois lançava seu jornal com o título que usava no Correio da Manhã. Começava fase diferente na sua vida.

Lançado nos últimos dias de dezembro de 1949, Lacerda já combatia a volta de Vargas, em outubro de 1950. Um erro total, como os fatos confirmaram. Lacerda e Golbery, grandes amigos até 64, tentaram evitar a posse de Vargas. Este chamou o general Stilac Leal, que presidia o Clube Militar, nomeou-o Ministro da Guerra, foi empossado.

Os tempos tumultuados

Vargas tomou posse mas não teve um minuto de trégua ou de descanso, e aí não foi por causa de Lacerda. Um ano depois da posse, seu Ministro do Trabalho, João Goulart, dobrou o salário mínimo, foi derrubado por um Manifesto de 69 coronéis. A primeira assinatura era do coronel Amaury Kruel, que teve grande importância.

O suicídio de Vargas

Fato mais importante da República, que nunca foi a dos nossos sonhos, mudou tudo. Mas atingiu até mesmo Lacerda. Assustado, e a conselho de Afonso Arinos se asilou na embaixada de Cuba, cinco anos antes da chegada de Fidel.

A embaixada ficava numa casa pequena na esquina da Avenida Copacabana com Miguel Lemos. Constrangimento rigoroso. O embaixador, paixão por Lacerda, a mulher tinha ódio. Foi para a Europa, ficou um ano, voltou, com a mesma agressividade, agora contra Juscelino.

JK “ajuda” Lacerda

Apesar dos dois golpes de 11 de novembro de 1955, Juscelino consegue se empossar e governar os cinco anos seguidos. Muda a capital em 1960, cria o Estado da Guanabara, marca eleição para 5 de novembro. Lacerda se candidata a governador, se não fosse isso não passaria de mandatos parlamentares. Faz um grande governo, se projeta acima de simples parlamentar.

O golpe de 64

Como já disse exaustivamente, em 1963 com o desfecho no ano seguinte, todos conspiravam: generais, governadores, o próprio ou principalmente Jango. O ano de 63 a partir do referendo de 6 de janeiro, que devolveu todos os poderes a Jango, foi inacreditável. Ninguém sabia o que aconteceria no dia seguinte. Só se soube mesmo a partir de 31 de março, 1º de abril.

Os generais comandaram tudo, eram invencíveis e golpistas, desde que se “apoderaram” e “contaminaram” a República. É possível que os seis governadores mais importantes, todos candidatos a presidente em 1965, tenham dado a impressão de apoiar ou estimular o golpe.

Mas ninguém tinha condições de resistir à ambição e a obsessão pelo poder, publicamente exibida pelos generais.

A Frente Ampla

No início de 1965, Lacerda me disse com ar de lamentação: “O presidente Castelo Branco me chamou e me convidou para embaixador na ONU. Compreendi que não era um convite e sim um veto antecipado a qualquer pretendida candidatura minha a presidente. Recusei na hora”.

Artigo deste repórter, de grande repercussão: “1965, a eleição que não vai haver”. Lacerda disse que era adivinhação

Logo percebi que os golpistas fardados não dariam vez a nenhum civil, principalmente Lacerda. Quando realizei na minha casa (onde moro até hoje) as duas primeiras reuniões, comuniquei e convidei Lacerda. Perguntou: “Quem vai?”.

Falei, o coronel-Ministro da Saúde de Jango, Wilson Fadul, torturadíssimo, o Brigadeiro Teixeira, grande líder da Aeronáutica, o editor Ênio Silveira, tão comunista que seu primeiro filho se chama Miguel Arraes da Silveira, Flávio Rangel, notável jovem que acabara de fazer com Millôr, o maior espetáculo depois do golpe, “Liberdade. Liberdade”, ele me interrompeu, “Eu vou”.

Foi, nenhum deles jamais falara com Lacerda, nem ele conhecia nenhum dos outros. Mas foram quatro horas de conversa que depois se desdobram com Jango e JK, Brizola se recusou.

Sumarizando

O golpe e a tomada do Poder, em 1º de abril de 64, já em 1965 Lacerda recusava ser embaixador na ONU, participava de reencontros com adversários. Todos perseguidos pela ditadura, como podem dar tanta ênfase e importância à sua participação no golpe?

Lacerda só pensava na presidência

Sempre acreditou nisso. Mas 1966, 67 e 68, foram tempos da ditadura contra ele. Quando em 13 de dezembro o locutor Alberto Cury começou a ler na televisão, às 8 e meia, o AI-5 miserável e vergonhoso, comecei a me vestir. Não era horário de sair sozinho, Rosinha perguntou onde eu ia, respondi: “Para o jornal”.

Naquela época não havia nem remota indicação de celular, na porta de saída da minha casa, um telefone. Tocou, Rosinha atendeu, passou para mim, “é o Carlos”. Atendi, disse pra ele, “estou saindo, vou ser preso imediatamente, você talvez seja a única pessoa que eu atendesse”.

Ele: “E eu?”. Respondi, “você vai ser preso e será cassado”. Do outro lado, um berro: “Você está acostumado a adivinhar, não serei preso nem cassado”.

Desliguei, fui para o jornal, logo preso. Levado para o Caetano de Farias. Pensei que fosse o primeiro, já encontrei Osvaldo Peralva, editor do Correio da Manhã, grande amigo, passamos a noite conversando.

Pela manhã, às 9 horas chega Lacerda. Me abraça, diz: “Está bem fui preso, você adivinhou uma parte, mas não serei cassado”.

Isso era 15 de dezembro. No dia 30 Lacerda foi cassado, já não estava mais preso. Eu, Peralva e Mario Lago ficamos até 6 de janeiro, Dia de Reis. Os generais são perseguidores, mas também muito católicos.

No dia 2 de janeiro de 1969, Lacerda viajou para a Europa, teve a gentileza de ir se despedir de nós. Não podia deixar de falar: “Não interessa discutir com você, a não ser que não valha adivinhação”. Ficou 3 anos na Europa, mais de 1 ano em Milão.

A volta e a morte com 63 anos

Chegou ao Brasil, ficou enclausurado na Nova Fronteira, Editora que fundara quando vendeu a Tribuna a Nascimento Brito, por 26 milhões de dólares.

A morte fulminante e silenciosa

Num dia de maio de 1977, a uma da tarde, sentiu dor no coração a família levou-o para o hospital. Por volta das seis foram liberados para irem embora, informaram: “O governador dormirá aqui, para observação”. É obrigatório. 

Quando Letícia e os filhos chegaram em casa, já havia recado para voltarem com urgência. Voltaram, já estava morto.

Tudo o que se “engendrou” depois sobre sua morte, a de JK e a de Jango, fantasia. Não que os generais não quisessem se livrar dos três. Mas não tiveram oportunidade de interferir.

Lacerda que tanto quis a presidência, morreu com 63 anos, sem nunca ter estado doente. Dois anos depois, viria a mistificação que chamaram e chamam até hoje de ANISTIA. Que só ANISTIOU os generais.

PS – O senador Álvaro Dias fez às 3 da tarde de quinta feira, admirável discurso sobre a diferença entre a CPI única e a CPI ampla, invenção do governo.

PS1 – Citou o Ministro Paulo Brossard, que no seu tempo deixou bem claro o quem é CPI e como deveria ser criada. Como diz a Constituição, “para investigar fato determinado”.

PS2 – Citando Brossard, o senador do Paraná trouxe ao debate outro gaúcho ilustríssimo, senador de vários mandatos, Ministro, governador, Pedro Simon.

PS3 – Simon, que no início da semana, já andara do edifício do senado ao do Supremo, para entregar junto com a oposição, um Mandado de Segurança CONTRA a CPI múltipla, esclareceu mais as coisas.

PS4 – Aprofundou o tema, deu exemplos, citou a Ministra Rosa Weber, que revelará, terça feira RELATARÁ esse Mandado de Segurança. Lógico, a FAVOR, fulminando a CPI fantasma do PT-governo.