Por Emanuel Cancella -
O último debate entre Lula e Collor, em 1989, manipulado
pela TV Globo para favorecer a candidatura Collor, mudou o rumo da história. A
edição tendenciosa virou objeto de estudo nos cursos de Comunicação e Política.
Numa disputa acirrada, o peso da mídia pode ter mudado o resultado das urnas.
Hoje não só a Globo
mas todos os grandes conglomerados de rádio, jornal e televisão continuam a
desempenhar esse mesmo papel deplorável e antidemocrático. O alvo do momento é a Petrobrás. Por trás da indecente manipulação dos fatos e
opiniões estão os donos do poder: as grandes petrolíferas, o capital financeiro
e os interesses norte-americanos, unidos num conluio que, em última análise,
pretende desmoralizar para privatizar a
empresa.
Fato recente aconteceu na Band News, no programa Ricardo
Boechat. Na quarta-feira (9) o jornalista perguntou, em rede nacional, onde
estavam a Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet) e o Sindicato dos
Petroleiros (Sindipetro-RJ) que não se pronunciavam diante das denúncias de
corrupção na Petrobrás. Como se as duas entidades estivessem omissas. Diante do
público, o jornalista desafiou Aepet e Sindipetro-RJ a se pronunciarem. Em
instantes, durante o programa, eu, Emanuel Cancella, coordenador do
Sindipetro-RJ, e o presidente da Aepet, Sílvio Sinedino, entramos em contato
com o programa, no Rio, mas não fossos ouvidos. Tudo isso está registrado em
nossos telefones.
No mesmo dia, nossa assessoria de imprensa também entrou em
contato com a Band News, em São Paulo. Ficou
a promessa de que seríamos procurados pela produção da rádio no dia seguinte,
quinta-feira. Mas tudo o que puseram no ar foi uma edição gravada e veiculada
apenas na sexta-feira. Uma fala editada e reduzida de Sílvio Sinedino. Apenas o
trecho em que Sinedino
contestava o ministro Guido Mantega sobre Pasadena. Nós, do Sindipetro-RJ, não
tivemos a oportunidade de expressar a nossa opinião.
No jargão jornalístico isso tem nome: manipulação da
informação. O Sindicato dos Petroleiros do Rio gostaria de dizer à sociedade
que, a despeito de todo ataque que a Petrobrás está recebendo da mídia, o
petroleiro trabalha e quem afirma isso são os resultados da empresa. Nós,
trabalhadores da Petrobrás, não compactuamos com corruptos e corruptores.
Mas percebemos que a mídia só se interesse por algumas
denúncias e só se escandaliza, de forma oportunista, com alguns atos de
corrupção. Outros, prefere esconder debaixo do tapete. Se os personagens implicados
nos atos de corrupção estiverem a serviço dos interesses privatistas podem ser
alçados até à condição de heróis. Caso da atual presidente da companhia Maria
das Graças Foster.
O Sindipetro-RJ denunciou que o marido da presidente da Petrobrás
tinha 43 contratos com empresa, sendo 20 sem licitação, mas a mídia não se
interessou em apurar.
Pelo contrário, depois do leilão do campo de Libra, Graça
Foster recebeu o título de “personalidade do ano”. Quando o presdidente da Aepet, há dois anos,
denunciou o caso da Refinaria de Pasadena, a mídia também não repercutiu.
Agora, próximo do processo eleitoral, tudo muda de figura.
O que não interessava antes vira escândalo e manchete. Os outros candidatos,
Aécio Neves e Eduardo Campos, seriam mais confiáveis ao sistema financeiro
internacional? Por que a mídia insiste na CPI da Petrobrás, mas tenta
inviabilizar a apuração das irregularidades que envolvem as obras de SUAPE, em
Pernambuco, que fatalmente atingiriam o governador licenciado Eduardo Campos?
Por que faz de tudo para esconder os escândalos do metrô de São Paulo, que
mancham a reputação e a imagem do PSDB de Mário Covas a Geraldo Alckmin?
Ironicamente, chamam a inclusão desses fatos na CPI de “chistudo”.
É evidente que a grande mídia arrota democracia mas se alimenta de
arbitrariedades. Julga com pesos diferentes. Manipula contra a maioria da
população, em favor dos interesses dos ricos e poderosos.
Com o respaldo da grande mídia, o Ministério Público e a
Polícia Federal prenderam um corrupto que, no momento, já pode ser descartado. Paulo
Roberto Costa, ex diretor da Petrobrás que, aliás, ocupou cargo-chave na
empresa desde o governo FHC. Corruptos podem ser substituídos e descartados.
Mas o que diz a grande mídia sobre os corruptores? Sobre estes, se cala. Duvido
que seus nomes venham à tona.
A mídia que agora cobra “moralização”, capitaneada pela
Globo, é a mesma que apoiou as privatizações e não aceita a Petrobrás como
única gestora do pré-sal. Desde que foram anunciadas as imensas jazidas do pré-sal,
no governo Lula, foram acrescentadas às reservas nacionais 70 bilhões de barris
de petróleo. Só isso já garante a autossuficiência do Brasil nos próximos 50
anos. Porém há muito mais a ser descoberto.
É nesse petróleo que eles estão de olho! Não
é o Sindipetro-RJ que denuncia, é Maria Augusta Tibiriçá Miranda. Em seu livro
“ O Petróleo é nosso!” (1983) ela
alerta: “...os inimigos da Petrobrás não
desistem nunca”...
Revelação do
Wikileaks – Os documentos revelados se referem à insatisfação das petroleiras
com a nova lei aprovada pelo Congresso brasileiro – em especial por ser a Petrobrás, a única operadora do pré-sal.
Revela, ainda, como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.
De acordo com o Wikileaks, as grandes petrolíferas recomendam:
“é preciso cuidado para não despertar o nacionalismo dos brasileiros”. Assim
como na Venezuela, onde existe um grande complô para tirar Nicolas Maduro do
governo, para se apoderarem da maior reserva de petróleo do Planeta, também no
Brasil o que importa é controlar o petróleo. A mídia brasileira está servindo
às multinacionais estrangeiras que pretendem destruir a Petrobrás para tomar
conta das reservas de petróleo do nosso pré-sal.
*Emanuel Cancella é coordenador do Sindipetro-RJ e da
Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).



