HELIO
FERNANDES -
15 de novembro de 1889, madrugada, escura, turva, cinzenta, surgia a tão desejada Republica. Mais anti-republicana, impossível. Nesses 127 anos decorridos aconteceu de tudo, sem exclusão dos fatos inacreditáveis de agora. Completavam-se 100 anos da Constituição dos EUA e a eleição direta do primeiro presidente, George Washington. Essa Constituição ficou sendo a única e todos os presidentes, eleitos com o voto do povo. (Única exceção: depois do impeachment-renúncia de Nixon, com o vice fora do cargo, assumiu o presidente da Câmara, Gerald Ford. Episodio que pode muito bem se repetir hoje, no Brasil).
Don
Pedro Segundo era bem mais republicano do que os militares que assumiram o
poder por 15 meses até 25 de fevereiro de 1891. E nesse dia, reconduzidos
indiretamente até 1894. Deodoro Presidente, Floriano vice e Ministro da Guerra,
comandando o exercito formado para a estranha e mal contada Guerra do Paraguai.
Em
1886, o Imperador pediu ao Primeiro Ministro Ouro Preto, que convidasse Rui
Barbosa para Ministro da Justiça. Resposta educada mas imediata de Rui:
"Por favor agradeça ao Imperador, mas diga que estou envolvido num
movimento que será vitorioso com a sua participação ou com a sua ausência se
for necessário". Era a Republica.
Rui
concordou em ser Ministro da Fazenda e redigir o ante projeto da Constituição,
que relatou como senador. Criou as famosas clausulas "pétreas”. Para ele a
mais importante era a alternância no Poder, com o impedimento da reeleição. Em
1894 tomou posse o primeiro civil, Prudente de Moraes. Fez um bom governo,
defendendo sempre o interesse nacional.
Em
1896 recebeu um Rotschild, que agressivo e mal educado em falar sobre a dívida
externa. (Hoje se chama divida publica). Prudente tocou a campainha, veio um
continuo, ordenou: "Leve o senhor até á porta, ele está de saída".
Quase no fim do governo, começaram a falar em reeleição, não quis nem conversa,
passou o cargo a Campo Salles, indicado pelo Partido Republicano, o único.
Governou
exatamente o contrario de Prudente, favorecendo interesses estrangeiros. No
segundo ano do mandato foi á Inglaterra. Em Londres andou de carro aberto com
outro Rotschild (eram 5 irmaõs), percorreu a Old Bond Street, o centro
financeiro da capital. Renovou o contrato da "divida", em condições
desvantajosas para o país.
Tentou
a reeleição, recusa total. Ninguém foi reeleito, até que surgiu o golpe de
1930, com Vargas 15 anos no poder. Sem eleição e sem vice. Derrubada a
ditadura, em 1945, houve a primeira eleição considerada direta. Mas os dois
candidatos serviram longamente ao ditador, no arbitrário "estado
novo", de 1937 a 45. Dutra Ministro da Guerra 8 anos, foi eleito.
Vargas
voltou por pouco tempo. Aí em 1955, direta verdadeira, Juscelino contra Juarez
Távora. Eleito, JK quase não tomava posse, governou até o fim. Mais tarde
confessaria: "Tentei a reeleição, vi que não dava, abandonei as conversas,
lancei minha candidatura para 1965, uma eleição que não houve".
Depois
de 29 anos, em 1989 houve outra direta com muita confusão. O surpreendente
Collor venceu, ficou pouco tempo. Com o impeachment assumiu o vice Itamar. Como
não havia reeleição, seu mandato era de 1ano e 11 meses. Jogou tudo em cima de
FHC, senador em fim de mandato. Nomeado logo Ministro da Fazenda, e acumulando
a seguir com o do Exterior, e a credibilidade de Itamar, derrotou Lula no
primeiro turno.
Mas
isso era pouco para tanta ambição. Acabando o mandato, começou logo a cuidar do
roteiro da continuação. Rasgou a Constituição liquidou a clausula
"pétrea", sem ética e sem caráter na vida publica ou particular,
comprou a reeleição á vista, mais 4 anos.
Essa
compra foi caríssima, não se sabia de onde viera tanto dinheiro. A
"delação" de Delcídio pode trazer explicações. FHC é fortemente
citado, junto com o Vice Temer. Aliás, estiveram juntos no episodio da
tentativa de impeachment. FHC foi salvo pelo suplente de deputado,
Michel Temer que ocupava a presidência da Câmara. Pode ter sido o Eduardo
Cunha da época, também é citado na "delação" do senador. Com ele não
acontece nada, vide o caso da infidelidade conjugal.
A
reeleição de Dona Dilma e tudo que vem acontecendo desde a segunda posse tem
que ser colocado na conta ambiciosa, ruinosa e tenebrosa de FHC. Sem reeleição,
Dilma teria ficado apenas 4 anos. Destruída a "pétrea" tão ciosa para
Rui Barbosa, Dona Dilma ficou outros quatro, ninguém sabe o que vai acontecer.
Se ela tivesse deixado o governo em 2014, sem reeleição, teria sido uma péssima
administração, não a catástrofe sem fim, que paralisou o país. 2014 sem a
recondução de Dona Dilma, teria vindo alguém que faria tudo diferente. Ou
erraria da mesma forma, mantida a alternância do Poder.



