11.11.15

CAETANO EM ISRAEL: "ATÉ O PESSIMISTAS NUNCA DIZEM JAMAIS"

Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -

O texto de Caetano Veloso publicado na “Ilustríssima” da “Folha de S. Paulo” (domingo, 8/11) é um documento maior, intenso, a começar pela forma, em seguida pela entonação.
Radicais — tanto de direita como de esquerda — já não sabem escrever, ou talvez nunca souberam. Tropeçam nas fúrias, atrapalham-se com a exaltação, incapazes de concatenar e fazer sentido. Sem serenidade, perdem o jeito para se esmerar, polir e lustrar — frases, ideias, sentimentos, ações. Ao contrário do relato quieto e inquietante de Caetano Veloso.
Não se trata de um “discurso de ódio” como os fanáticos de plantão prontamente tentaram desqualificar esta peça corajosa e sofrida, escrita com o coração partido e a alma inteira.
Igualmente respeitosa, a “Folha” ofereceu à comunidade judaica no Brasil, em especial às suas novas gerações, uma reflexão – e certamente a oportunidade de um debate — que dificilmente encontrarão em vernáculo. Uma visão humanista que o dogmatismo religioso, a intolerância política e uma equivocada noção de pertencimento teimam em sufocar não apenas aqui, também nos quatro cantos do mundo. Assim como a diplomacia dos americanos e europeus tenta tirar Israel do bunker onde acabou metido, a Diáspora que alimentou sua criação precisa oferecer-lhe outras convicções.
Caetano Veloso certamente não o planejou, mas dentro de aproximadamente duas semanas, no dia 29 deste mês, será lembrado o 68º aniversário da aprovação pela Assembleia Geral das Nações Unidas da Resolução 181 que determinou a Partilha da Palestina em dois estados, um árabe, outro judeu, mais a internacionalização de Jerusalém e o início de uma série de iniciativas de cooperação não muito diferentes das que a França e a Alemanha adotaram anos depois na preparação da futura União Europeia.
O que Caetano Veloso propõe com exemplar candura e extraordinário senso de justiça é completar a legitimação do Estado de Israel com a legitimação do Estado Palestino. Nada mais, nada menos. Não importa quem (na ocasião e nas décadas seguintes), tentou impedir a ferro e fogo a concretização integral da partilha do território. O que importa neste momento é a remoção do único obstáculo para consolidação final do projeto aprovado pela mais alta instância da comunidade internacional: o irredentismo da coalizão religiosa-direitista-nacionalista que governa Israel há mais de duas décadas.
O texto de Caetano Veloso não tem qualquer traço de antissemitismo, ao contrário, é afetuoso, reverente. As fontes e anfitriões na visita que ele e Gilberto Gil fizeram a Israel, eram israelenses (majoritariamente filhos de sionistas brasileiros que se estabeleceram no país), seus guias serviram nas forças armadas, portanto são reservistas – o que não os impede como cidadãos de assumir forte militância oposicionista. Uma lástima que o radicalismo e a brutalidade de Benjamin Netanyahu os tenha contagiado a ponto de não distinguirem as enormes diferenças entre o atual premiê e o ex-presidente, Shimon Peres, o último dos “founding-fathers” do Estado de Israel.
O aniversário da partilha da Palestina pode ser a oportunidade para retornar e completá-la. O estadista gaúcho Oswaldo Aranha foi o artífice da histórica votação da ONU. Os poetas baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil podem ser os artesãos que ajudarão a transformar partilha em compartilhamento.
Único senão de histórico texto é a promessa final, categórica, definitiva, de jamais voltar a Israel. Espere, Caê, entre tantas perdas que hoje choramos restou uma esperança proclamada por um deprimido camarada que este observador encontrou uma única vez, há cerca de 75 anos, mas convive com ele há pelo menos 40: a inexorável convergência entre humanos.
Segue a reprodução do artigo de Caetano Veloso: