Por EMIR SADER - Via Carta Maior -
O
futuro se constrói abrindo novos horizontes, novas perspectivas, novas
utopias, resgatando o que fomos capazes de construir.
- Seguir no labirinto ou jogar tudo pela janela? O falso dilema -
Quando
a história nos coloca dilemas difíceis de resolver, o catastrofismo é
um bom consolo: tudo vai para o pior dos mundos. Ou mudamos tudo
radicalmente, abandonando tudo o que foi feito até aqui ou despencaremos
inevitavelmente no abismo que nos aguarda ali na esquina.
Nessas
visões coincidem vozes distintas. Por um lado, as bem intencionadas,
que acusam como as formas predatórias de vida predominantes dilapidam os
recursos naturais, aprofundam formas de vida irresponsáveis, fazem o
mundo se aproximar de catástrofes naturais e sociais. São vozes que
absolutizam tendências realmente existentes, sem levar em conta as
contra tendências. É o problema de todo catastrofismo: isolam tendências
e as projetam para o futuro, sem tomar em consideração as outras
diretrizes igualmente presentes, de forma contraditória, na realidade
concreta. Terminam se refugiando numa visão escatológica, que não capta
os movimentos e as contra tendências que disputam a hegemonia no mundo
realmente existentes. São vozes que sempre existiram e servem como
chamados morais sobre os riscos presentes nos dilemas atuais, sem servir
para orientar a construção de vias alternativas nos marcos históricos
do mundo real.
Por
outro, estão as aves de rapina, aquelas que só aparecem quando
aparentemente não existem alternativas concretas e eles pretendem
apontar para soluções messiânicas, que jogariam tudo pela janela, para
aderir a suas visões intelectualistas e sem nenhum vínculo com a
realidade concreta. São fabricantes de programas para todo politico que
lhe solicite, de distintas tendências, dispostos a contratar seu verbo.
São os mesmos que haviam anunciado catástrofes irresolúveis no fim do
século passado e nunca se renderam aos avanços que países como o Brasil e
outros da região conseguiram avançar, em meio a labirintos que pareciam
insolúveis.
Simples
é abandonar o caminho quando parece que todas as vias apontam para a
mesma direção, quando parece que os labirintos nos condenam a repetir
caminhos sem saída. Dificil é seguir a sábia orientação: de um labirinto
se sai por cima, ao invés de ficar rodando interminavelmente pelos seus
meandros de sempre.
O
ceticismo que corre solto por aí, típico de época em que as
alternativas não aparecem claras, joga tudo pela janela. Como não
valoriza a forma espetacular de reação dos governos progressistas
latino-americanos a uma situação similar a esta – em que parecia que não
se sairia mais nem do neoliberalismo, nem do endividamento com o FMI -,
afirma que nada de importante aconteceu neste século.
Senão,
teria que valorizar que o continente mais desigual do mundo – e, dentro
dele, em especial o Brasil, o pais mais desigual do continente mais
desigual – tenha conseguido diminuir a pobreza, a miséria, a exclusão
social e a desigualdade. Tendo construído, num marco internacional e
recebendo uma herança maldita, um modelo que conseguiu retomar o
crescimento econômico intrinsecamente vinculado à maior distribuição de
renda que nossa historia já conheceu.
O
Brasil precisa dar uma virada na sua trajetória. O esquema montado por
Lula entrou em crise. Mas a alternativa não pode desconhecer tudo o que
foi construído. Ao contrário, terá como objetivo a forma de preservar e
aprofundar tudo o que foi conquistado. Não se trata nem de retroceder
ao que havia antes, nem de desconhecer tudo o que foi avançado.
O
futuro se constrói abrindo novos horizontes, novas perspectivas, novas
utopias, mas resgatando o que fomos capazes – contra vento e tempestade,
contra todos os ceticismos e os catastrofismos – de construir.



