LUIZ ANTONIO SIMAS -
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| O batizado de Macunaima (Tarsila do Amaral) |
Certa vez me perguntaram qual é o caráter - no sentido identitário - do carioca. Que caráter? Que identidade? Somos, todos nós, moradores da encruzilhada em que se encontram acultura herdada e a cultura adquirida; um manancial de identidades contraditórias nos empurrando em diferentes direções. Nós estamos em deslocamento, feito cavalos de santos que transitam tonteados no baque de diversos pontos na canjira, sem ter um único ponto pra firmar no riscado da pemba de lei. A fixidez identitária é confortável, mas ilusória. A grande aventura do Ser é a disponibilidade para transitar e não ter medo da contaminação/animação pela amplitude da diferença. O Ser macumbado e íntegro em seus fragmentos, em suma.
MACUMBA
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| Maria Helena Vieira da Silva. Macumba, 1946 |
Temos que combater a desmacumbização da vida. Não penso macumba pelo viés da religião, mas como um jogo de subversão da morte/desencanto por práticas cotidianas de vida/ encantamento. O Ser macumbeiro rasura o projeto colonial (o neoliberalismo é uma faceta da colonialidade). A macumba é um manancial de práticas/conceitos e de maneiras de estar no mundo. O seu contrário é a não presença: o aniquilamento em vida.
Como diz a sabedoria do caboclo na cangira, que transformei em curtos versos:
Lá fora há tantos mortos dançando mais que os vivos
Bailando na memória de outros corpos.
Aqui dentro tantos vivos morrem todo dia
Mais que os mortos.
Fonte: Facebook

