CARLOS CHAGAS -
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| Leônidas sorrindo (d) e Sarney boquiaberto. |
A morte do general Leônidas Pires Gonçalves, quinta-feira, encerra
um ciclo iniciado anos antes da Guerra do Paraguai, ainda no Império,
quando altos oficiais das forças armadas começaram a atuar
politicamente e a pronunciar-se sobre a realidade institucional do
país. Uns de forma truculenta e ambiciosa, outros trabalhando para o
aprimoramento democrático e a pacificação nacional. Foi o caso do
general Leônidas, responsável pela superação do primeiro obstáculo
anteposto ao desenvolvimento da Nova Republica. Na madrugada de 15 de
março de 1985 a nação mostrava-se estarrecida pela internação de
Tancredo Neves no Hospital de Base de Brasília. Já nomeado novo
ministro do Exército, com a Constituição na mão, ele convenceu as
lideranças políticas de que, na impossibilidade de o presidente
eleito tomar posse, o juramento deveria ser prestado pelo
vice-presidente eleito, José Sarney.
Havia controvérsias na interpretação o texto constitucional. O vice
substituiria e sucederia o presidente, no caso de impedimento temporário
ou permanente, mas, assim como Tancredo, Sarney ainda não tinha
tomado posse. Muitos sustentavam a aplicação do artigo determinando que
se não tivesse havido posse do presidente e do vice eleitos, assumiria o
presidente da Câmara dos Deputados, então Ulysses Guimarães, para
convocar novas eleições em trinta dias. Seria o caos, em especial porque
no governo Figueiredo, horas antes de terminar, alguns generais
pretendiam aproveitar a situação para melar o jogo, não entregando o
poder a Sarney. Além do próprio último general-presidente,
inclinavam-se pela sua permanência o ministro do Exército, Walter Pires,
e o chefe do Serviço Nacional de Informações, Octávio Medeiros. O
chefe da Casa Civil, Leitão de Abreu, sustentava a posse de Sarney.
Naquela madrugada, recebeu os líderes do novo governo e sua opinião
serviu para desfazer a dúvida gerada pela hesitação dos dois
personagens principais: Sarney achava que Ulysses deveria assumir e
este, para evitar a crise, defendia o contrário. Desambiciosos, ambos, mas trafegando num fio de navalha.
Foi quando o general Leônidas Pires Gonçalves, ainda sem ter assumido
o ministério do Exército, mas já ministro de fato e, vale repetir, com a
Constituição na mão, decidiu pelos políticos e pelos juristas: não
havia dúvida, deveria ser José Sarney a prestar juramento no Congresso e
a ocupar o governo. Num telefonema ao vice, participou-lhe a decisão
e, alta madrugada, despediu-se com um “Boa noite, presidente!”
São desses momentos cruciais na história dos povos e das nações. A
Nova República poderia ter sido demolida antes mesmo de nascer, mas
graças à intervenção de um general, sobreviveu e afirmou-se. Como
represália, Figueiredo deixou o palácio do Planalto pouco antes da
chegada de Sarney, a quem recusou-se passar a faixa presidencial. Só
que o vice já detinha o poder, vestiu sozinho a faixa e empossou o
ministério escolhido por Tancredo.
Apenas um detalhe a mais. No auge da confusão da madrugada, quando o
general Walter Pires aventou a hipótese de movimentar a tropa para
manter Figueiredo, ouviu de Leitão de Abreu que não podia, pois não era mais ministro. Sua demissão havia sido assinada pelo presidente e
vinha publicada no Diário Oficial. O ministro do Exercito já era
Leônidas Pires Gonçalves e sua participação na vida política brasileira
foi a última intervenção castrense nas questões político-institucionais
do país.



