Por KIKO NOGUEIRA - Via DCM -
Em 2011, quando o SBT completou 30 anos de atividade, Silvio Santos
participou de uma sabatina com seus funcionários em seu hotel no
Guarujá.
De chinelo, calção cor de rosa, camisa amarela com estampas de
flores, a indefectível dentadura — enfim, aquela fantasia de milionário
excêntrico —, Silvio falou de si mesmo.
Parte da conversa foi postada no YouTube. Descontados os puxa-sacos
que não perderam a chance de chamar a atenção do patrão, há alguns
momentos reveladores, especialmente vistos em retrospectiva diante do
embroglio Fifa.
Diz ele que superar a Globo é “impossível” (o que explica, de certo modo, a submissão ao lixo que é a cara do SBT).
“Nós de televisão estamos vendo que por mais que a Record queira se
aproximar da Globo, em todos esses anos ela não passou de onze pontos e
ultimamente tem caído para dez, nove, oito pontos”, afirma. “O que
significa que o público, dificilmente, vai deixar a Globo. É um muro. E
ultrapassar esse muro a gente só consegue de vez em quando. É claro que
se você tem um jogo de futebol entre Corinthians e São Paulo na
Bandeirantes, isso pode dar 30, 40 pontos, mas no dia seguinte as
pessoas voltam para a Globo. A gente já sabe que lutar contra a Globo,
na minha opinião, é impossível.”
Segue um blablablá sobre superação e seguir seu sonho.
Mas o que passou despercebido na época e que atualmente ganha
relevância é o motivo de sua desistência do futebol. Um sujeito o
questionou: “A maior audiência na história do SBT foi num jogo em 1995,
final da Copa do Brasil entre Corinthians e Grêmio. Depois disso a
emissora nunca mais investiu no futebol. Por quê?”
Silvio respondeu de maneira sucinta, eventualmente sucinta demais.
“Eu me lembro de um ano em que eu tentei competir com a Globo e a minha
proposta tinha sido até um pouco melhor”, falou.
“Me responderam que a Globo tinha uma cláusula preferencial e que, se
ela cobrisse a minha proposta, ficaria com os direitos. E depois dessa
data eu vi que qualquer tentativa de se trazer o futebol para outra
emissora que não fosse a Globo não daria resultado.”
O que dizia a cláusula preferencial? Por que era inútil lutar contra
isso? Qual o obstáculo intransponível para um empresário de televisão?
Em 2012, a Record divulgou um comunicado protestando contra o fato de
ter perdido a briga pelas Copas de 2018 e 2022. “No encontro realizado
no Hotel Fasano, no Rio de Janeiro, a direção de nossa empresa ouviu
garantias de que a licitação seria pública, transparente e aberta em
regime semelhante ao que a Fifa realiza em países do mundo inteiro”,
lia-se.
“O acordo com a concorrência foi anunciado sem que qualquer outra
empresa de comunicação brasileira tenha sido consultada. A informação
foi divulgada no mesmo espaço de notícias em que a Fifa anuncia a
abertura de licitação dos direitos para centenas de países. É estranho
verificar que para o Brasil o método seja outro. Um contrato sem
concorrência decidido ‘fora do horário comercial’, sem ser à luz do dia e
de forma transparente.”
Houve uma ameaça de tomar as medidas judiciais cabíveis, mas tudo
indica que não se foi adiante. Os acordos envolvendo Globo, CBF e Fifa
podem ter, agora, a transparência que nunca tiveram. É provável que no
lodaçal do Fifagate surja a resposta que Silvio Santos deixou pela
metade.
Vídeo SBT 30 anos:
