Por EMIR RUIVO - Via DCM -
“Alô”, ela respondeu. Pedi para falar com Viviany e notei o medo num
instante de silêncio antes de responder que era ela. Me apresentei. Um
alívio parecia tomá-la.
Viviany Beleboni, 26 anos, é uma travesti e faz questão de ser
identificada assim. Usou esta palavra algumas vezes durante a conversa
que tivemos por telefone.
Foi ela quem fez, presa numa cruz, uma performance na parada LGBT de São Paulo no último domingo, 7 de julho.
“Foi um protesto. Fui representar as travestis que são crucificadas todos os dias. Não fui representar Jesus Cristo”.
Viviany conta que optou pela performance por conta do aumento dos
crimes contra travestis e transexuais no último ano. “Uma amiga minha
levou 4 tiros há poucos dias”.
Criação própria, a performance chocou alguns religiosos mais afoitos.
O deputado-pastor Marco Feliciano chegou a falar em “cristofobia” nas
redes sociais.
Feliciano não compreende reciprocidade e não entende que quem quer
respeito tem que respeitar. Ele acha normal dizer que o homossexualidade
é doença, mas acha inadmissível que alguém faça uma performance usando
uma cruz.
No texto postado nas redes sociais, Feliciano diz ser contra usar a
imagem de Jesus num beijo gay. E por que não poderia? Quem disse que não
pode? Ele? E ele tem exclusividade sobre a imagem de Jesus? Quem deu?
Jesus?
Nem sobre a compreensão de Jesus de Nazaré “cristãos” como ele têm
exclusividade. Os fundamentalistas são os que deturparam a mensagem de
seu messias.
Feliciano começou o fuzuê em cima de Viviany, incluindo imagens de
outros países e de outras manifestações. Viralizou. Até o momento, mais
de 400 mil compartilhamentos.
Como resultado, uma onda de gritaria que culminou numa ameaça de
morte esta manhã. “A primeira coisa que fiz hoje de manhã foi receber um
telefonema me ameaçando de morte. Depois desliguei o telefone”.
A modelo ainda lida com as reações que sua performance provocou. “São
covardes. Te desejam câncer, que sua família morra. Diziam que eu tinha
que ter sido eletrocutada, que ter caído e quebrado o pescoço. E dizem
que são religiosos”.
Viviany é ativista da causa gay há muito tempo, mas se sentiu
desprovida de apoio por parte dos homossexuais. “[Gays] chegaram a me
falar que sou porca, que manchei a parada”, diz. “Me senti desrespeitada
pelos gays, mas ao mesmo sei que não são todos”.
Da mesma forma que sua surpresa foi grande diante da reação, também
foi grande diante dos que saíram em sua defesa. “A comoção me fez pensar
que fiz a coisa certa. Não me arrependo”.
Viviany segue o espiritismo. Acredita em Jesus. Disse “graças a Deus” mais de uma vez durante a conversa.
“Estou querendo ir embora do país”, ela disse. Segundo ela, não é por
nenhum tipo de raiva ou medo. “Já pensava nisso, hoje esse desejo
aumentou muito. Por isso estou estudando inglês”.
É bom notar que há uma placa que explica sua intenção aos
desavisados. Ninguém está “debochando”, como disse Feliciano. A mensagem
é clara: “basta de homofobia”, não é “abaixo Jesus” (muito embora
fundamentalistas digam “abaixo o homossexualismo” numa boa, quando não
“abaixo os homossexuais”).
