INFORMAÇÃO LIVRE

10.6.15

EM TEMPOS DE CONSERVADORISMO, SURGE A LEI PARA ERRADICAR O MACHISMO NAS ESCOLAS

DANIELA ABREU -


“As preparadas”, “as cachorras”, “as mina aqui no baile” que dançam “na boquinha da garrafa” e são pressionadas a se tornarem perfeitas já que “tudo que é perfeito a gente pega pelo braço, joga ela no meio mete em cima mete embaixo”. Estas são algumas das músicas que participaram da construção do imaginário de crianças e adolescentes. O machismo se faz presente em todos os espaços da sociedade brasileira, e a cultura de massa é um instrumento eficaz na construção desse pensamento.

Muitas são as conquistas das mulheres na sociedade brasileira, mas longe ainda de se findar a supremacia de uma sociedade machista, onde mulheres recebem salários mais baixos, ausência de creches, desigualdades e muita violência. No Brasil a cada 15 segundos, uma mulher é espancada, ou seja, 2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano. A criação de leis é um dos instrumentos importantes para intervir nesse processo, a lei do feminicídio contribuiu para denunciar que este tipo de crime é motivado por machismo, onde o homem se vê dono da mulher ao ponto de ter direito de tira-lhe a vida.

Buscando intervir diretamente na formação das crianças e dos adolescentes dentro das escolas municipais do Rio de Janeiro o Vereador Renato Cinco do PSOL criou a lei 5.858 que foi aprovada 11/05/2015 e entrou em vigor na data de sua publicação.

O projeto de lei se sustenta na agressiva realidade onde índices de violência aumentaram muito nos últimos anos. Pesquisas do ISP (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro) trazidas no Dossiê Mulher 2013 relatam que em 2012 o somatório dos casos de ameaça, estupro, homicídios, tentativa de homicídio e lesão corporal dolosa foi de 45.449 ocorrências. E o Estado apresentou um aumento de 36% dos casos de estupro, em relação ao ano anterior.

Hoje muitas meninas sofrem bulling fruto do machismo que julga e apedreja. Tem tornando-se comuns imagens de meninas nuas sendo disseminadas em redes sociais. Na maioria dos casos funciona como prova de amor, ousadia para o menino que se gosta, algo bem semelhante com a menina que fazia algum tipo de sexo para não perder o namorado. A dominação do homem vai desde o sentimento que seu valor está em estar com alguém e estando você, menina, fará tudo por ele. A história sempre ocorre com a menina tirando uma foto para passar apenas para o menino amado, este a expõe em rede. Existem casos que meninas chegaram a tentar suicídio, e muitas entraram em depressão. Outro caso comum é o menino filmar uma atitude sexual e compartilhá-la nas redes sociais, provavelmente o menino será visto como o garanhão, supervalorizado pelos colegas e nada penalizado pela escola, enquanto a menina será julgada e apedrejada, provavelmente convidada a se retirar da escola.

Esta lei é um serviço para a construção de uma sociedade sem violência e violação dos direitos, ela aposta na formação de cidadãos melhores, sem preconceito e com compreensão que mulheres e homens merecem respeito. Ela atua de imediato sensibilizando toda a comunidade escolar, professores, funcionários, alunos e pais com a importância dos direitos da mulher e ainda investe em um futuro sem machismo.

Se por um lado os meios de comunicação e a cultura de massa são instrumentos fortes na formação do indivíduo, a escola junto com a família são instituições basais. A escola é um aparato ideológico, e em uma sociedade onde pais não conseguem estar presentes no dia a dia devido a vida exprimida de tanto trabalho, a escola passa a ser a sustentação prioritária da cultura e personalidade dos meninos e meninas. 

Os tempos são de grande conservadorismo e novas tecnologias, de cópias e não de criação. Dentro das escolas públicas reina a meritocracia, desta forma o que ficou em último plano é a formação do cidadão. A qualidade da educação brasileira não consegue segurar a maquiagem e a ODCE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) revelou o 60º lugar no ranking entre 76 países. No exterior a educação brasileira é vista como uma fábrica de analfabetos funcionais. Dentro desse quadro caótico a possibilidade de uma educação voltada para a liberdade tem ficado distante.

Quais os valores trabalhados hoje dentro das escolas, quais iniciativas contribuem para a ruptura com o machismo? A maioria das escolas é afundada em métodos didáticos sexistas, que impõe uma dominação ou acirra uma disputa geralmente equivocada e desigual. O que é feito para que meninos respeitem as meninas, e meninas não tenham medo e nem idolatrem os meninos? Como convencer que o menino que assiste o padrasto, ou o pai batendo na mãe que isso é crime, e nenhuma mulher, pode e merece apanhar?

A lei não garante a erradicação, ela é um instrumento, mas o trabalho no dia a dia da escola é o que irá construir uma verdadeira ruptura. O professor é ator fundamental dessa transformação e terá a lei como um suporte para sua intervenção.

No meio de tanto conservadorismo leis avançam as lutas de séculos, e mulheres, Gays, negros portadores de deficiência não estão mais a sombra. Todo o preconceito precisa ser resolvido e toda diversidade respeitada.