CARLOS CHAGAS -
No meio da confusão a Câmara lançou sobre o governo Dilma um míssil
mais letal do que a primeira votação em favor dos 75 anos para
aposentadorias no Judiciário. Menos por faltar uma segunda votação, mais
porque dos 513 deputados, só 108 votaram contra a convocação do
ministro da Educação para explicar porque declarou que 400 ou 300
deputados são achacadores.
O ex-governador Cid Gomes pode entender pouco sobre educação, mas
parece mestre em trapalhadas. No fim de semana que passou, reunido com
professores e reitores de diversas universidades, em Belém do Pará,
declarou que “400 ou 300 deputados optam pelo quanto pior, melhor,
querem que o governo esteja frágil, forma de achacarem mais, tomarem
mais, tirarem mais, aprovando as emendas impositivas”.
Agressão igual a essa só a do Lula, antes de assumir a presidência da
República, quando afirmou que na Câmara existiam 300 picaretas. Na
época, não houve reação. Agora, a ampla maioria dos deputados votou pela
convocação do ministro, entre candentes pronunciamentos onde o mínimo
que sustentaram foi a sua demissão imediata. Junto com a bancada da
oposição estavam governistas aos montes, até do PT. A convocação, ao
contrário do convite, equivale a uma intimação, onde o convocado é
obrigado a comparecer como a uma delegacia de polícia, para ser
interrogado. Com dia e hora a ser marcados para a semana que vem,
estando os deputados dispostos a exigir explicações.
Pelo seu temperamento, há dúvidas se Cid Gomes comparecerá, pois já
tinha fixado o dia 19 para, como convidado, dialogar com a Câmara. Isso
foi antes dos desastrados comentários de Belém. Ignora-se agora se
pedirá desculpas, mesmo diante da impossibilidade de comprovar sua
assertiva.
A decisão dos deputados, na noite de quarta-feira, dá bem a medida do
clima de beligerância entre o Congresso e o governo. Boa parte dos
deputados pretendeu atingir a presidente Dilma, mais do que o ministro
da Educação. Não será o deputado Eduardo Cunha, como presidente da
Câmara, a botar panos quentes na questão. Muito pelo contrário. Ele está
disposto, no caso da recusa de Cid Gomes comparecer, a mobilizar
estruturas policiais para conduzi-lo debaixo de vara, conforme o jargão
jurídico.
UMA GRANDE CPI
Na madrugada do dia de sua renúncia o então presidente Jânio Quadros
recebeu a informação de que a Câmara dos Deputados decidira transformar o
seu plenário numa grande Comissão Parlamentar de Inquérito para
investigar denúncias de Carlos Lacerda sobre estar um golpe em marcha. A
hipótese teria sido um dos motivos para Jânio abandonar o poder.
Alguns deputados oposicionistas mais radicais andam sugerindo o
alargamento da CPI da Petrobras, imaginando que como está constituída
dificilmente ela chegará a algum resultado. Já com todo o plenário da
Câmara funcionando como CPI, poderia ser diferente. O diabo são os
deputados incluídos na lista do procurador Rodrigo Janot: poderiam
participar como inquisidores ou como réus?
