INFORMAÇÃO LIVRE

17.4.14

CHINA CALIBRA SEU DISTANCIAMENTO DA RÚSSIA

Via Indian Punchline -

Do cuidado com as palavras nas declarações e notícias; do tom contido da cobertura pelos jornais; e até da linguagem corporal[1] dos dois principais personagens, na “visita de trabalho” que o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov fez a Pequin, ontem, se depreende que a China mostrou relutância e não quer ver-se arrastada para as tensões atuais com o Ocidente, sobre a Ucrânia. Detalhe interessante: deixando Pequim, Lavrov viajou para o Vietnã.[2] 


Em declaração lacônica, comentada pela televisão chinesa,[3] o presidente Xi Jinping destacou a importância de trocas de alto nível entre os dois países, com reforço na “colaboração” em assuntos internacionais e regionais. Mas Xi apenas “trocou algumas ideias” com Lavrov “sobre a crise na Ucrânia.”

A agência de notícias chinesa Xinhua está dando integral cobertura à narrativa oficial ucraniana, segundo a qual haveria ‘mão dos russos’ nas agitações no leste e no sul da Ucrânia. Durante a visita de Lavrov, o ministro chinês de Relações Exteriores Wang Yi não arredou pé da posição de Pequim, de “atitude justa e sem vieses”[4] em relação à crise ucraniana, e manifestou desaprovação a qualquer movimento que possa desestabilizar a situação na Ucrânia.

Wang repetiu a sugestão chinesa, de que que crie um “mecanismo multilateral de diálogo”. A versão da rede Xinhua[5] apenas menciona rapidamente, de passagem, a Ucrânia. O contraste entre o que dizem a imprensa russa (na divulgação da viagem de Lavrov)[6] e a imprensa chinesa (durante e depois da visita) não poderia ser maior.

Chama a atenção que qualquer movimento que os russos façam agora, para cancelar a reunião ‘dos 4’ em Genebra, na 5ª-feira, motivados pelo ataque militar contra o leste da Ucrânia,[7] já estará em oposição à posição declarada dos chineses. Antes de viajar, Lavrov havia dito que ataque militar, como o que aconteceu, levaria Moscou a afastar-se da reunião em Genebra.

Parece que Moscou começa a descartar a reunião de Genebra e começa a preferir iniciar mais uma sessão no Conselho de Segurança da ONU. O vice-primeiro-ministro de Relações Exteriores da Rússia Gennady Gatilov sugeriu que Moscou está considerando as opções.[8] Pela narrativa russa, a reunião de Genebra seria inútil, porque o que se vê desenrolar-se na Ucrânia é, nada mais nada menos, que ampla operação da CIA,[9] item da agenda para empurrar a OTAN para bem próximo das fronteiras leste da Rússia.

A manifesta reserva de Pequim durante a visita de Lavrov pode ser atribuída a três fatores principais. Um, a situação da Ucrânia está evoluindo de tal modo que Pequim não pode excluir a possibilidade de, em algum momento, se a situação de segurança no leste e sul da Ucrânia dominados pela Rússia se agravar, ou se houver banho de sangue, a Rússia ser obrigada a intervir. Se isso acontecer, Pequim será fortemente pressionada a assumir publicamente a defesa da soberania e da integridade territorial da Ucrânia.

Segundo, Washington já começou a explorar o mal-estar latente na região do Pacífico Asiático e o ‘perigo’ de a China fazer-se ‘de Ucrânia’ contra os países vizinhos. Faltou um milímetro para que o secretário de Defesa dos EUA Chuck Hagel[10] pronunciasse a palavra “China”.

Mais uma vez, o governo Obama usou a ocasião do 35º aniversário[11] da Lei de Relações com Taiwan para apresentar os EUA, por implicação, como amigo, guia e guardião confiável dos países regionais que venham a ter disputas com a China.

Dito de outro modo: os EUA estão explorando o espectro de uma China potencialmente beligerante, para reforçar seu próprio ‘pivô’ na direção do Pacífico Asiático. Terceiro, sem dúvida alguma a China tem razões para fixar-se nessa “atitude justa e sem vieses” na questão da Ucrânia: assim fazendo, deixa espaço para que EUA e Rússia interpretem a posição chinesa, cada um, como se favorecesse um dos lados e as respectivas narrativas sobre a Ucrânia.

De fato, a China tem relutado consistentemente em permitir que a Rússia apareça como fator de peso na configuração do “novo tipo de relacionamento” entre China e EUA. Mas há aí também uma contradição fundamental: por um lado, a Rússia aparece como potência ‘demandada’ na ordem mundial; mas, por outro, a China é acionista daquela mesma ordem ‘demandante’ e só tem a perder num mundo em desordem e caos.

Pode-se dizer que há aí uma curiosa inversão de papéis em relação à Guerra Fria, quando Moscou rejeitou a insistência de Mao Tse-tung, que entendia que a União Soviética devia arriscar uma guerra nuclear contra os EUA para fazer avançar a causa comunista. Conta-se que Nikita Khrushchev teria dito: “Há gente [Mao] que diz que se pode construir uma nova sociedade sobre os cadáveres e a ruína do mundo. Será que sabem que, se se dispararem as ogivas nucleares, o mundo acabará de tal modo arruinado, que os sobreviventes invejarão os mortos?” *****