Por CRISTOVAM BUARQUE -
No fim deste ano, quando o PIB de 2015
for divulgado, a lama que matou o rio Doce não vai aparecer. As cenas do rio
Doce sendo engolido pelo lixo da mineração, famílias soterradas, trabalhadores
sem meio de vida e praias destruídas são a face mais visível das depredações
provocadas e ignoradas pela economia brasileira. Os desastres sociais e
ecológicos não aparecem nas estatísticas.
A economia brasileira não leva em conta a sujeira que provoca a destruição da
biodiversidade, nem as “monstrópoles” que criou com sua violência
descontrolada, nem o agravamento da desigualdade. Nossos rios estão morrendo
pelo mau uso de suas águas ao longo de décadas, explorados como depósitos de
lixo industrial e urbano e para geração de energia, sem consideração com a
sustentabilidade.
Prometemos deixar um país mais rico para nossos filhos e netos e conseguimos
fazer do Brasil a sexta economia do mundo, mas não estamos deixando um país
mais limpo: da corrupção que rouba dinheiro público, que envergonha a
sociedade, destrói nossas estatais, desvia dinheiro de nossas necessidades,
desmoraliza a política, mata nossas esperanças; limpo da burocracia que barra a
eficiência na aplicação dos recursos; do corporativismo, que se apropria da
máquina pública e a utiliza mais para tirar vantagens do que para servir ao
público.
Queremos um país limpo ao assegurar igualdade no acesso de cada criança
brasileira a uma escola de qualidade, independentemente da riqueza dos pais e
da cidade onde mora; uma pátria limpa da insensatez e da indecência de jogar
fora a maior de nossas riquezas: desperdiçando o talento de qualquer
brasileiro. Limpo da violência que assassina nossos jovens e rouba nossas ruas,
tanto quanto a lama rouba o rio; sem filas para atender direitos básicos, como
vaga em creche ou escola; e atendimento médico necessário.
Não basta continuar prometendo fazer um país rico, precisamos de uma nação
limpa: da vergonha dos ricos e das necessidades dos pobres; de sermos o oitavo
mais rico e o sexto com pior distribuição de renda; do acanhamento de termos 13
milhões de integrantes da população adulta que não conhecem a própria bandeira
por não saber ler “ordem e progresso”, e outros 40% que sabem ler apenas pouco
mais que isso.
Um país onde a riqueza seja construída com absoluto respeito ao equilíbrio
ecológico e à preservação da biodiversidade; usada não apenas para reproduzir a
riqueza, mas sobretudo para abolir o quadro de pobreza da nossa população,
assegurando bolsa para quem precisar, mas emancipando as pessoas da necessidade
de bolsas.
Para isso, o Brasil precisa de uma economia que seja sustentável
ecologicamente, distributiva socialmente, moderna científica e
tecnologicamente; uma economia limpa, criativa, inovadora, com elevada
produtividade e competitividade; sem lama. E todos sabem que o caminho para
isso é um presidente, um governo e uma base parlamentar que conduzam o Brasil
na marcha para ser uma pátria limpa.
*Cristovam Buarque é senador pelo PDT-DF.
