Por LÚCIO FLÁVIO PINTO - Via blog do autor -
João Lara Mesquita conhece profundamente o
litoral brasileiro. Tanto por estudá-lo como por percorrê-lo sistematicamente
de barco. Ele ficou chocado pelo desastre de Mariana, que amanhã completa um
mês e ainda é um tema em aberto. Tão pouco conhecido que oito pessoas
permanecem desaparecidas, além das 11 que morreram.
Inegavelmente, foi o pior acidente ambiental
causado pela mineração no Brasil e um dos mais graves do mundo. Mas ainda falta
estudá-lo melhor, quantificá-lo e projetar seus efeitos sobre a natureza e o
homem. Ninguém duvida que os danos se farão sentir pelos próximos anos.
As autoridades públicas envolvidas já definiram
em 20 bilhões de reais o valor exploratório da indenização que os causadores da
tragédia terão que pagar. O contencioso que se estabelecerá fixará o valor
legal devido.
Mas há questões elementares ainda sujeitas à
controvérsia. A lama que vazou com o rompimento da barragem de contenção de rejeitos de minério de ferro da
Samarco é ou não é tóxica. Uma parte dos que se manifestaram até agora afirma
que não é. Outra sustenta que é.
João Lara Mesquita está no segundo grupo. Ele se
baseia na análise da água do rio Doce feita pelo Serviço Autônomo de Água e
Esgoto, de Baixo Guandu, no Espírito Santo (por aonde a lama chegou ao mar). O
resultado apontou a presença de metais pesados: chumbo, alumínio, ferro, bário,
cobre, boro e mercúrio.
“O rio está morto, o cenário é o pior possível”,
disse Luciano Magalhães, diretor do Saae. “Morte anunciada em razão de uma
legislação frouxa e inexistência de fiscalização”. Por isso, ele pede a
responsabilização do poder público, cujos erros contribuíram para o acidente.
Mas ele foi a um ponto até aqui ignorado ou
subestimado pela imprensa brasileira: a participação da multinacional
anglo-australiana BHP Billiton, que divide com a Vale, em partes iguais, o
controle acionário da Samarco.
Reproduzo o trecho final do artigo que João
publicou, revelando o que apurou sobre a BHP, na Folha de S. Paulo, sem deixar de estranhar um
fato: ele é da família Mesquita, dona do principal concorrente da Folha, que
é O Estado de S. Paulo. Por que seu artigo não saiu
no Estadão?
Com a palavra, João Lara Mesquita.
A BHP Billiton, ao contrário de Midas, tem dedo podre.
Acidentes graves são frequentes onde atua. Um dos piores aconteceu em
Papua-Nova Guiné, ao abrir uma mina de ouro e cobre, a OK Tedi Copper Gold
Mine, em 1984.
Durante 20 anos despejou, dia após dia, 80 mil toneladas de
rejeitos contendo cobre, cádmio, zinco e chumbo, diretamente na bacia do rio
Fly, o que arruinou terras de milhares de agricultores, envenenando 2.000
quilômetros quadrados de floresta. E detonou dois rios, o Fly e o Ok Tedi.
Para fugir das responsabilidades, assinou acordos com líderes
comunitários, que isentaram a empresa do pagamento de indenizações.
ONGs informaram que “ao conversarem com os nativos, ficou
claro que eles não sabiam o que estavam assinando”. O histórico da BHP gerou um
relatório alternativo, “BHP Billiton Dirty Energy”, informando sobre a
destruição de comunidades na Colômbia, acidentes na Indonésia e Austrália.
Já o “Mining Journal” cita outros, como o da mina de cobre em
Pinto Valley, Arizona (EUA).
Só o Brasil oficial não sabia?



