CARLOS CHAGAS -
Se verdadeira ou inventada, divulgou-se a versão de que o Lula, em
Roma para cumprimentar José Graziano por sua recondução na
diretoria-geral da FAO, teria comentado com a presidente da Argentina
que “os países não podem contar com a área econômica de seus governos
para realizar programas sociais”. Teria acrescentado que “se cada
presidente ficar esperando que o ministro da Fazenda diga estar sobrando
dinheiro, nunca fará um programa de transferência de renda”.
Cristina Kirschner pode ter concordado ou não, mas o alvo desse
comentário, vale repetir, se verdadeiro, foi a presidente Dilma. Assim
como seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Sinais existem de que o Lula
não engoliu as propostas de ajuste fiscal apresentadas pelo novo
ministro. Em especial no que se refere às restrições aos direitos
trabalhistas, como salário-desemprego, abono salarial e as pensões das
viúvas. O diabo é que Dilma não apenas autorizou, mas defendeu e defende
publicamente o retrocesso. Embarcou nas restrições neoliberais de
Levy, que a Câmara dos Deputados aprovou. Precisará sustentá-las a
partir de quinta-feira, em Salvador, diante de um PT insatisfeito, no V
congresso nacional do partido. Acrescente-se, na presença do Lula.
Grandes esforços vem sendo feitos pelos companheiros dirigentes para
evitar críticas ostensivas à política do ajuste fiscal, mas se o
antecessor discorda dos planos neoliberais adotados pela sucessora, no
mínimo a temperatura vai subir na reunião. Mesmo que o Lula se cale, ou
até figuradamente peça apoio do plenário a Dilma, não haverá como
evitar o racha. Porque a maioria do PT, com seu fundador à frente, sabe
estar perdendo e mais perderá o respaldo de suas bases. Não faltarão
vozes para a discordância.
Os companheiros pensam longe. Estão de olho nas eleições
presidenciais de 2018, passando pelo ano que vem, quando das escolhas de
prefeitos e vereadores. Sabem que não será andando de bicicleta que
Madame evitará a rejeição do eleitorado ou irá recuperar a
popularidade. Muitos já duvidam da disposição do Lula de candidatar-se.
Tinha uma reeleição certa antes dos panelaços mas não esquece que por
três vezes foi derrotado na disputa pela presidência, mesmo tendo
vencido duas.
Em suma, a convenção deste fim de semana na capital baiana servirá
de termômetro. Um teste fundamental dentro de casa. Dilma e Lula
poderão até entrar juntos no auditório, com os aplausos abafando o
silêncio. A discordância estará do lado de fora, na Bahia e no país
inteiro, se o ministro da Fazenda continuar sustentando não haver
dinheiro para o trabalhador...
