Por EDUARDO SILVEIRA DE MENEZES - Via Observatório da Imprensa -
Não restam dúvidas de que a “memória seletiva” do maior conglomerado de mídia do Brasil – o Grupo Globo – opera como um mecanismo estruturante do analfabetismo político para o qual alertava o dramaturgo alemão Bertold Brecht no século 20. Basta considerar a cobertura doJornal Nacional (JN) em relação a dois fatos de maior relevância para o interesse público: a reforma política que está em curso no Congresso Nacional e os casos de corrupção envolvendo a Federação Internacional de Futebol (Fifa). Em ambos, silencia-se o ódio à democracia; um sentimento construído pela fúria insana dos que marcham alienadamente representando os interesses das velhas oligarquias.
A privatização do poder em benefício de uma minoria, tão bem
problematizada pelo filósofo Jacques Ranciére no livro Ódio à
Democracia, recentemente publicado pela Boitempo Editorial, só pode ser
compreendida com uma leitura crítica do processo de construção da
informação. Ao noticiar as mudanças decorrentes da Proposta de Emenda à
Constituição (PEC 182/07), sobretudo em relação à aprovação do fim da
reeleição para cargos executivos, na edição do dia 28 de maio de 2015, a
repórter Zileide Silva diz que a proposta teve apoio de quase todos os
partidos, inclusive do PSDB, o qual, de acordo com a matéria, teria
apenas “apoiado a reeleição na política brasileira”.
Seria ingenuidade pensar que a emissora da família Marinho desconhece um
importante elemento da informação que foi ocultado de seus
telespectadores; isto é, o contexto político vivenciado em 1997, cujo
escândalo da compra de votos veio acompanhado do famoso decreto 1.720 –
uma segunda moeda de troca utilizada pelo então presidente Fernando
Henrique Cardoso (FHC) para viabilizar a reeleição.
A sequência da matéria, apresentando a entrevista concedida pelo líder
do partido na Câmara, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), torna o texto
jornalístico em questão digno de uma peça publicitária. Ao dizer que a
reeleição “cumpriu seu período histórico”, o parlamentar nada fala sobre
as motivações do referido processo. Não fala – e, obviamente, não é
questionado pela repórter –, por exemplo, sobre os quase dois mil
aliados que foram beneficiados por uma ordem direta do Executivo, que, à
época, concedeu 319 outorgas somente para afiliadas da Rede Globo.
Ódio seletivo
O fato do atual governo não ameaçar os interesses do grupo Globo não
interfere na oposição declarada à presidenta Dilma Rousseff e, em
especial, ao Partido dos Trabalhadores (PT), pois se trata de um ódio de
classe. Por mais que o governo esteja mantendo e, em certa medida,
intensificando o projeto neoliberal –veja-se o encaminhamento da Lei da
Terceirização (PL 4330) e o ajuste fiscal que estão em curso –, o
compromisso histórico com o trabalhador, mesmo traído, continua a causar
ojeriza nos grandes grupos de mídia.
A Rede Globo está acostumada a servir o poder oligárquico e, neste
ponto, o texto de Ranciére, mesmo escrito com base no contexto francês,
mostra-se extremamente adequado ao momento político brasileiro. Para o
autor, o ódio à democracia representa o ódio à igualdade; um ódio que é
diferenciador. Sob a luz desta reflexão, pode-se dizer que nem todos, de
acordo com a leitura conservadora da família Marinho, seriam
“destinados ao exercício do poder”. Não será preciso aprofundar-se sobre
o envolvimento ideológico do Grupo Globo com forças golpistas, mas esta
referência é importante. As parcerias com a companhia de mídia
norte-americana Time-Life e o bom relacionamento com o general Castelo
Branco, na década de 1960, foram fundamentais para a construção de um
império midiático que nenhum governo ousa sequer questionar.
O caso de sonegação da Globo ao adquirir os direitos de transmissão das
Copas do Mundo de 2002 e 2006, amplamente divulgado em sites
alternativos e nas redes sociais, é outro ponto revelador sobre como se
constrói o ódio à democracia. É interessante observar o oportunismo com o
qual se classificam os crimes de favorecimento ilícito nas coberturas
jornalísticas. As manifestações de indignação com os casos de corrupção
na Petrobras são direcionados apenas ao período atual, desconsiderando,
assim, as suspeitas de que o esquema poderia ter origem ainda no governo
FHC.
As “marchas pela liberdade”
Além disso, vale lembrar que o principal noticiário de repercussão
nacional é veiculado por uma emissora que foi multada em mais de R$ 600
milhões de reais por sonegar impostos. Esta não parece ser a fonte mais
indicada para tratar dos escândalos de corrupção envolvendo a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas é a de maior audiência. Os
direitos de transmissão de campeonatos de futebol, adquiridos junto à
agência de marketing esportivo Traffic Group, cujo proprietário, José
Hawilla, é dono de uma TV afiliada à Rede Globo no interior paulista,
estão no foco das investigações do Departamento de Justiça dos EUA.
O editorial apresentado por William Bonner durante o JN na noite de 27
de maio, um dia antes de ser veiculada a reportagem sobre a aprovação do
fim da reeleição na Câmara, segue a lógica do silenciamento. A
reportagem veiculada pela emissora trata do esquema de corrupção
envolvendo a venda de direitos de transmissão de campeonatos como a Copa
América e a Copa do Brasil, mas nada fala sobre o Campeonato
Brasileiro. Embora seja feita uma referência ao ministro da Justiça,
Eduardo Cardozo, que declarou haver indícios de que os crimes
investigados nos Estados Unidos também tenham sido cometidos no Brasil,
cinicamente silencia-se o caso envolvendo a Rede Globo, a qual, para
assegurar a compra dos direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006,
formou uma empresa de fachada – a Empire.
Nesse contexto, infelizmente, não é de se estranhar que um suposto “ódio
à corrupção” não passe, verdadeiramente, de ódio à democracia, com
recorte de classe. O orgulho de vestir a camisa da CBF nas “marchas
anticorrupção” revela a incapacidade de contemporização dos que aderem
ao movimento. Estufa-se o peito dizendo “odiar a política”, “odiar o
vermelho”, “odiar o comunismo”, “odiar o PT”, “odiar a Dilma”, mas, na
verdade, procura-se ter um alvo bem definido para um sentimento de
impotência decorrente da alienação. Em meio à ignorância política,
mandam-se às favas o processo histórico e político inerentes a corrupção
que acomete não só os três poderes, mas também as instituições
esportivas. Para o “analfabeto político”, o fim da reeleição e a venda
dos direitos de transmissão são vistos sob o mesmo enfoque. Julgam-se,
espertos e bem informados. Afinal, acreditam estar diante de mais uma
“frase de impacto” para levar nas “marchas pela liberdade”, desde que
não resolvam, é claro, agendar os “protestos” pedindo a intervenção
militar para os dias e horários que a Rede Globo transmite as partidas
de futebol.
*Eduardo Silveira de Menezes é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas.
