DANIELA ABREU -
Entre crises e manifestações, surge uma ação
inadmissível. No dia 28 de maio a UERJ foi palco para uma das mais autoritárias
atitudes ocorrida dentro de um campus Universitário, remetendo-se aos duros
tempos da Ditadura Militar. Ação assustadora e incoerente com a trajetória de
uma universidade conhecida pelo seu caráter popular e de atuação com as
comunidades do entorno.
Enquanto estudantes participavam de uma
assembleia no campus do Maracanã, ao lado a comunidade Metrô- Mangueira sofria
sua remoção pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Após a derrubada das casas,
moradores indignados ocuparam as duas pistas da Av. Radial Oeste. Os estudantes
se dirigiram para lá visando apoiar os moradores e protestarem contra as
remoções.
O ato
que era pacífico foi logo atacado pela guarda municipal e por muitas bombas da
polícia militar. Todos os que se manifestavam correram para a UERJ certos de um
refúgio onde a Polícia não teria o direito de entrar. Mesmo após a entrada no
campus, policiais continuaram jogando bombas que atingiram parte do
estacionamento. Estudantes e moradores da comunidade removida ao tentarem
entrar foram recebidos por uma atitude truculenta, onde portas foram fechadas,
jato d’água jogado em cima dos manifestantes, ameaças e socos. Muitos
seguranças estavam vestidos a paisana e tinham um cassetete de madeira nas mãos
e pedras as quais foram arremessadas nos estudantes. O horror permaneceu por
horas chegando, levando ao caos, muitos estudantes agredidos reagiram, mas o
ápice do preconceito e do ataque aos direitos humanos foi quando seguranças
espancaram e levaram preso para uma sala um estudante negro, Rafael da Geografia.
No
lugar de desculpas por tal arbitrariedade e ataque a democracia o reitor
Ricardo Vieira Alves culpabilizou os alunos e condenou o apoio aos moradores
removidos, chamando esta de uma “associação perigosa”. Sua declaração visou
criminalizar os manifestantes e transformar moradores desalojados de suas casas
em bandidos. Essa colocação preconceituosa não condiz com um dirigente da
Universidade mais popular do Rio de Janeiro. Essa está longe de ser a visão
acadêmica predominante em uma universidade que tem sua história marcada por
milhares de projetos sociais com todas as favelas do entorno. Foram anos de
ensino, pesquisa e extensão dedicados a intervenção direta na sociedade. A
pesquisadora e professora adjunta do departamento de sociologia Lia Rocha declarou
toda sua indignação.
“Como professora e como pesquisadora a reação dos
seguranças, a partir de ordens da reitora, e a posterior nota do Reitor
justificando o fato são chocantes. Em uma universidade como a UERJ, que tem
orgulho de sua política pioneira de cotas e seu perfil popular, que a
instituição use mangueiras contra estudantes e manifestantes com a
justificativa que eram moradores de favela e, portanto "estranhos à
Universidade" é inaceitável. Se o reitor da UERJ não sabe aqui os "favelados"
entram pela porta da frente, são nossos alunos e alunas. Ele foi tão truculento
quanto a Polícia Militar que estava do lado de fora reprimindo manifestantes na
justa luta contra a remoção da favela Metrô Mangueira. A UERJ é uma
universidade aberta à sociedade, jatos d'água em estudantes e manifestantes não
nos representam.”.
(Professora Lia Rocha do departamento da Sociologia
da UERJ)
As universidades brasileiras são parte intrínseca
da história do Brasil. Hoje essas páginas são escritas com uma grave crise financeira
imposta pela lógica do capital. A opção pelos rumos econômicos direcionaram as
ações que serão sofridas por todo sistema de ensino. O corte de verba que impacta todas as
universidades Federais no Brasil atinge também a UERJ e outras universidades
estaduais. Compreender que a crise é uma opção política, um mecanismo de não
permitir a real crise do capital. Ao esgarçar a opção por uma política
econômica baseada nos commodities, banqueiros, latifundiários, exportadores de
minerais, não podem pagar pela crise. Quem paga?
A
ASDUERJ propõe uma abertura imediata de diálogo e acredita que a crise deverá
ser resolvida em conjunto com todos os setores da universidade. A associação
acusa a reitoria de intransigência e antidemocrática também na hora das negociações.
Entre muitas propostas está uma comissão que estude os impactos econômicos com
um possível aumento para docentes e funcionários. Lamentam que toda a postura
atual é de não negociação e de violência física.
Embora
o ápice de tal postura antidemocrática tenha ocorrido no dia 28, Todos
testemunharam a violência ocorrida contra pais e alunos que protestavam contra
as condições do Cape UERJ (Colégio Aplicação da UERJ).
A
sociedade brasileira conquistou nos últimos anos avanços fundamentais para a
democracia, como a união de homo afetivos, mas paralelo uma reação conservadora
produziu muitas atitudes que ferem o Estado Democrático de direito e semana
passada foi a vez da reitoria da UERJ registrar em suas paredes a violência
externa da polícia militar e interna produzida por seguranças que cumpriam a
ordem do próprio reitor.
Novas
páginas deveriam aparecer escritas nessa história, onde os direitos do aluno
Rafael da geografia sejam restabelecidos. O diálogo se restabeleça para os que
vivenciam o cotidiano da universidade e fizeram desta uma renomada e
comprometida universidade. Que jatos de água, preconceito e intolerância nunca
mais sejam lançados da UERJ em estudantes nem em moradores das favelas.



