Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -
O complicado Eugène Ionesco, com todos os seus absurdos e estranhas
alusões, costuma ser mais fácil de entender do que os misteriosos
desígnios e critérios do editor(a) da nobre Página 3, que abriga a seção
“Tendências/Debates”, no primeiro caderno da Folha de S.Paulo.
Com um intervalo de pouco mais de duas semanas o privilegiado espaço
do jornalão foi oferecido a dois cartolas com currículos no mínimo
questionáveis – tanto na esfera esportiva como política – para desancar
um brilhante jornalista naquele momento internado numa UTI.
Um foi, o outro é, deputado federal. Walter Feldman já envergou
inúmeras camisas (do PCdoB ao PSDB e PV), agora carrega a maleta do
presidente Marco Polo Del Nero, na condição de secretário-geral da CBF,
afiliada brasileira da FIFA.
Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, agora superintendente
de futebol, já usou diversas cartolas na mesma e emérita CBF. Está no
seu primeiro mandato como deputado federal na bancada do PT-SP, o que
lhe garante certas vantagens em caso de indiciamento.
Walter Feldman deu azar: dias depois de investir contra Kfouri na
página mais prestigiosa do jornalão foi obrigado a calar-se – certamente
por modéstia – quando o ínclito José Maria Marin, vice-presidente da
entidade, foi convidado a manter a dieta de chocolates suíços num
xilindró com vista para os Alpes. Agora, Feldman curte um silêncio
monacal diante da real possibilidade do seu chefe, Marco Polo del Nero,
ser convidado para uma temporada na Papuda ou numa prisão americana com
as despesas pagas pelo FBI.
Boa briga
Os impropérios do cartola corintiano foram publicados no dia 4 de
junho, em plena temporada de escândalos Padrão FIFA. É possível que o
autor (ou quem assina o texto) escape de um processo por difamação, mas
nunca se sabe: a bola da vez, afinal, é amarela com estrelinhas azuis.
Ser cartola já foi ofício de prestígio. Agora é melhor usar a camisa do
Barça para não levar uns cascudos de algum corintiano exaltado.
Mas o que causa espanto e repulsa são os postulados e princípios morais que levam um jornalão de prestígio internacional como a Folha
a oferecer a sua página mais distinta como quintal para o exercício do
direito de resposta. Se os atingidos pelas denúncias de Juca Kfouri têm
algo a acrescentar que o façam na mesma Página 3, mas no “Painel do
Leitor”, onde outros reclamantes – até mais qualificados – costumam
contestar o jornal e articulistas.
Qual a razão do tratamento VIP a cartolas insatisfeitos?
Compreensível caso fossem dignatários do Opus Dei, mas pelo menos um
deles jamais poderia fazer parte da ilustre prelazia. A deferência,
portanto, deve ter motivos que escapam às comezinhas considerações
éticas ou deontológicas. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, presidentes
das duas casas legislativas federais, têm sido tratados com extremo
rigor – como merecem – mas nunca lhes foi oferecida a privilegiada
Página 3 para responder aos detratores e eleitores.
O mistério se esclarece ao lembrar que a Folha sempre foi
fascinada pelo recurso de fazer barulho: não pelo teor do que publica,
mas pelo artifício infantil de provocar discórdias a qualquer preço.
Esta maneira arrevesada de forçar repercussões acaba transformando o
jornal numa disfarçada rinha de galos ou mero octógono para disputa de
UFC.
Não é assim que se aumenta a circulação e credibilidade, sobretudo
porque, ao colocar a equipe de articulistas na defensiva e em
desvantagem, o jornal compromete a própria imagem.
Se o jornal pretende exibir sua musculatura, que enfrente os
concorrentes. Neste exato momento, uma briguinha com o Grupo Globo a
propósito da transmissão de jogos e temas correlatos daria à Folha
um formidável empurrão. Este é o tipo de barulho que agrada os leitores
e anunciantes, estimula os colaboradores e faz do jornal um legítimo
defensor do interesse público.



