SEBASTIÃO NERY -
Em 1954, o principal líder estudantil e presidente da União
Paraibana de Estudantes era o François, de Campina Grande. Preparando o
congresso nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes) que seria no
Rio, uma comissão foi ao Norte e Nordeste. Em Campina Grande, o François
nos garantiu que a maioria da delegação paraibana votaria com a
esquerda. E votou. 20 anos depois, em 1974, recebi no Rio um telefonema
de Londrina:
– Nery, aqui é o Leite Chaves, o François de Campina Grande. Sou
candidato a senador pelo MDB do Paraná. Queria que você viesse ao
comício de lançamento, para dar um depoimento sobre minha atuação no
movimento estudantil, no nosso tempo da UNE.
Cheguei à tarde. O comício era à noite. No aeroporto,faixas e uma charanga tocando a musica da campanha.Vi logo o François:
– François, meu companheiro!
François deu um passo à frente, me abraçou e disse ao ouvido:
– Nery, não fale em François, pelo amor de Deus. Aqui em Londrina sou
o doutor Leite Chaves, advogado. François aqui é cabeleireiro ou veado.
O doutor Leite Chaves, em plena ditadura, fez uma campanha brilhante pela oposição, ganhou e foi um senador valente e exemplar.
JANENE
Infelizmente em Londrina não havia apenas a banda boa do Leite Chaves
com seus companheiros José Richa prefeito, senador e governador,
Alencar Furtado varias vezes deputado, Helio Duque três vezes deputado,
Álvaro Dias governador e senador e tantos outros.
Também havia a banda podre que nasceu lá atrás com José Janene
deputado, Alberto Youssef doleiro, Antonio Belinati deputado duas vezes
prefeito e duas vezes cassado e tantos outros.
O Mensalão estava em Londrina com Janene. O Petrolão também está em
Londrina com o mesmo Youssef do Mensalão. E reaparece a historia
rocambolesca do Janene, agora feito cadáver insepulto. E não é que quem
assinou o atestado de óbito do Janene foi o Youssef?
Está na hora de Londrina deixar o Janene dormir em paz.
PATRIMONIALISMO
As diferentes Constituições brasileiras, as elaboradas por
constituintes ou impostas pelo autoritarismo, têm um consenso: o Estado
burocrático e patrimonialista é intocável. O notável escritor
latino-americano Otávio Paz definiu que “patrimonialismo é a vida
privada incrustada na vida pública”.
1.- No Brasil, o patrimonialismo é secular. Muito bem definido pelo
jurista e historiador Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”, ele
demonstra que na herança ibérica, ao lançarem as bases para a formação
do Estado tutor, “o governo tudo sabe, administra e provê, distribuindo
riqueza e qualificando os opulentos.”
2. – Na mesma perspectiva, o historiador Sérgio Buarque de Holanda,
em “Raízes do Brasil”, comprova que o patrimonialismo brasileiro tem
profunda resistência à meritocracia e impessoalidade na administração da
gestão pública. Certamente havia lido “Economia e Sociedade” de Max
Weber, adaptando o seu pensamento à realidade brasileira.
3. – Nele, Weber afirma que o patrimonialismo é quando o governo se
apodera de recursos do Estado, distribuindo para grupos poderosos na
economia. O interesse público e o privado tornam-se aliados intocáveis
na dominação e usufruto da máquina do Estado.
BNDES
Um exemplo: na última década o Tesouro Nacional transferiu R$ 435
bilhões de recursos para o BNDES, pagando taxas de mercado. São
emprestados a juros negativos, a TJLP, para empresas “apelidadas” de
campeões nacionais do desenvolvimento. Hoje o grupo JBS (Friboi) tem 25%
de participação do banco e outros como Eike Batista deram com os burros
n´água. A fila é gigantesca. Hoje a TJLP – Taxa de Juros de Longo Prazo
é de 6% ao ano.
Podem esperar. Depois da roubalheira na Petrobras, explodida pela
coragem do juiz Sergio Moro e seus companheiros do Ministério Publico e
da Policia Federal, um dia há de aparecer a podridão do BNDES e seus
Fribois, Lulas e Lulinhas. E vamos ter saudade da Petrobras.
FIGUEIREDO
Não se escreve sobre livro que não se leu mais da metade. Ainda estou
no meio de “1964 – O Ultimo Ato”, de Wilson Figueiredo (Editora
Gryphus). Quem como eu viveu e sofreu o turbilhão do golpe militar de
1964 fica até hoje surpreso com a inacreditável lucidez e sabedoria com
que o poeta, escritor e redator do Jornal do Brasil, com seu estilo
brilhante, fulgurante, testemunhou e interpretou, dia a dia, aqueles
turvos dias.
