CARLOS CHAGAS -
Um dia o Lula falou que não bastava aumentar salários. Era preciso
mudar o regime. O tempo passou, mas à exceção dos metalúrgicos do ABC,
durante alguns anos, os salários não aumentaram e o regime continua o
mesmo. A Nova República continuou velha e o partido dos trabalhadores
nem é dos trabalhadores e muito menos é partido. A reforma política nada
reformou. A Câmara rejeitou todas as propostas de mudança e o Senado
confirmou a supressão de direitos trabalhistas.
Fazer o quê? Aguardar as próximas eleições é sonho de noite de verão.
Faz décadas que nos enganamos com a expectativa, porque tudo fica na
mesma. Imaginar a rebelião das massas equivale a desconhecê-las e a
ignorar que jamais terão consciência de sua capacidade.
Quem assistiu as longas sessões da Câmara, terça-feira e ontem,
rejeitando alterações eleitorais, bem como a adesão do Senado ao
massacre do trabalhador, concluirá pela desimportância do Congresso e a
falência dos partidos políticos.
Madame, no México, exultou e confundiu todo mundo ao dizer “que desde
2008 o Brasil adotou medidas anticíclicas para evitar contaminação da
economia pelos efeitos da crise global e que agora é hora de desfazer as
medidas anticíclicas e fazer o dever de casa”. Entenderam? Nem eu.
A verdade é que apesar de o PT continuar votando contra os direitos
trabalhistas, nenhuma proposta saiu de suas bancadas no sentido de
dividir com as elites a carga de sacrifícios para enfrentar a crise
econômica. Joaquim Levy já se declarou contra o imposto sobre grandes
fortunas e sua opinião parece haver frutificado no partido. O vampiro
continua se banqueteando no banco de sangue.
Numa palavra, o regime continua o mesmo enquanto, ou por conta disso,
os salários não aumentam. O Lula deve explicações. Pretende voltar ao
palácio do Planalto, em 2018, com que intenção? Corrigir os malfeitos
de Dilma parece muito pouco. Ampliar o assistencialismo será inócuo.
Mudar o regime?
O primeiro companheiro precisa dizer o que pretende. O seu ideal não
pode restringir-se à possibilidade dos operários freqüentarem churrascarias uma vez a cada seis meses. Muito menos a voltar aos tempos
em que a crise econômica não nos atingia. O provável candidato é
intuitivo. Pouco ou nada lê. Toca de ouvido. Mas deve definir o seu
regime.



