CARLOS CHAGAS -
Para proteger as galinhas, o cidadão trancou o galinheiro com
cadeado. No dia seguinte, entregou a chave para a raposa. Nenhuma imagem
definirá melhor o que se passou na Câmara, terça e quarta-feira. Num
dia os deputados votaram a proibição de as empresas doarem dinheiro para
as campanhas eleitorais. No outro, aprovaram as doações das empresas
para os partidos políticos financiarem as campanhas dos candidatos.
Melhor fechar a extinta Casa do Povo. Pelo menos, deixar que o
Supremo Tribunal Federal legisle contra a corrupção. Hoje os
empreiteiros amanheceram em festa. Os banqueiros também. E outros
empresários. Todos garantiram seus investimentos até o final do século.
Basta que cada um escolha o seu parlamentar, adiantando-lhe recursos
para comprar um mandato nas próximas eleições. Depois, será exigir a
compensação através de emendas, de leis, facilidades e benesses. A
Câmara acaba de decretar a República dos Contrários. No espaço de 24
horas votou contra e a favor. Claro que vai prevalecer a doação
desenfreada. Não se votará teto algum.
O pior nessa história de horror é que a imensa maioria da Câmara
apoiou a segunda proposta. Eduardo Cunha e Celso Russomano puxaram a
fila, mas não se exime culpa de ninguém.
Na mesma quarta-feira da aprovação de doações empresariais, a Câmara
extinguiu o princípio da reeleição para presidentes da República,
governadores e prefeitos, por 452 votos a 19. A Constituição exige outra
votação. A dúvida é se Suas Excelências da próxima vez votarão em massa
pelo segundo mandato. Estariam, ao menos, sendo coerentes na
incoerência.
O GRANDE DERROTADO
Ninguém se lembrou de consultar Fernando Henrique a respeito do fim
da reeleição. Ele também preferiu ficar calado. Dezenove anos atrás, foi
o grande beneficiário da mudança, que impôs ao Congresso junto com a
aberração de que a desincompatibilização não era necessária.
Lula e Dilma aproveitaram-se da maré, mas fica claro que a nação
rejeita a disputa pelo segundo mandato imediatamente após o primeiro,
com o candidato dispondo da caneta e do diário oficial.
