Por EDSON TELES - Via Carta Maior -
Marin
está sendo preso por corrupção, mas ele e seus comparsas de ditadura
permanecem impunes pelas graves violações dos direitos humanos que
cometeram.
No final deste mês de maio foi preso José Maria Marin, cúmplice da
tortura durante a ditadura militar brasileira. Mas não se assuste: a
democracia no Brasil continua a mesma e os militares não vão se
aquartelar por isto.
Foram presos na Suíça, junto com o defensor
de tortura, diversos dirigentes da Fifa, a federação internacional de
futebol que regula o esporte e organiza os torneio mundiais a cada
quatro anos. Sim, a mesma que comandou o estado de exceção dentro do
estado de direito brasileiro no ano passado. A acusação, vinda de
investigações da polícia norte-americana, indica que Marin e os outros
cobravam propinas para cederem direitos de realização e transmissão dos
torneios de futebol, inclusive a Copa de 2014 no Brasil. Os casos de
corrupção agora denunciados ocorreram quando Marin era presidente da
Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Entidade dona da seleção
brasileira de futebol, recentemente a CBF teve seu contrato secreto de
marketing revelado – nele se diz que os jogadores são convocados e
escalados no time nacional de acordo com os interesses de venda dos
patrocinadores.
Tudo isto parece muito impactante e incrível no
país do futebol. Parece ainda pior do que os 7 x 1 para a Alemanha. Mas o
que me parece mais grave e, ao mesmo tempo curioso, é termos um
participante do esquema de tortura na ditadura sendo preso por
corrupção, fora do país, enquanto ele mesmo e os generais e oficiais
responsáveis pelas graves violações de direitos humanos ocorridas no
país permanecem impunes.
José Maria Marin iniciou sua carreira
política junto com o golpe de 64. Já em 1969, logo após o início do
AI-5, tornou-se presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Em 1971,
virou deputado estadual pela Arena (partido dos militares), um ano após a
conquista do tri campeonato mundial de futebol e no mesmo momento em
que Dilma Roussef se encontrava presa, após ser torturada nas
dependências do DOI-Codi de São Paulo. Mais tarde, no ano de 1975, Marin
cobraria a ditadura sobre os comunistas instalados na televisão pública
de São Paulo, a atual TV Cultura. Dentre estes estava Vladimir Herzog.
O
atual dirigente da Fifa e da CBF discursou em favor da cassação dos
comunistas, conforme registrado nos documentos da Assembleia
Legislativa: “faço um apelo ao governador do Estado: ou jornalista está
errado ou está certo. Essa omissão por parte da Secretaria do Estado e
do governador não pode persistir. Mais do que nunca é necessário agir
para que a tranquilidade reine novamente nesta Casa e, principalmente,
nos lares de São Paulo”.
Quinze dias depois Vlado compareceu à
mesma rua Tutoia, no DOI-Codi, onde tantos brasileiros haviam sido
presos, torturados, assassinados e seus corpos desaparecidos. Naquele
dia 25 de outubro de 1975, os militares mataram Vladimir Herzog, um dos
jornalistas denunciados pelos discurso raivoso de Marin. Não foi engano a
defesa e conivência de Marin com a estrutura de tortura no país. Menos
de um ano depois, o mesmo deputado da Arena discursava em defesa do
delegado torturador Sergio Fleury.
Nas gravações da Assembleia
registra-se: “conhecendo seu caráter como eu conheço, não há dúvida de
que Sérgio Fleury ama sua profissão; de que Sergio Fleury se dedica ao
máximo, sem medir esforços nem sacrifícios para honrar não apenas a
polícia de São Paulo, mas acima de tudo seu título de delegado de
polícia. Ele deveria ser uma fonte de orgulho para a população de nossa
cidade”. Segundo os principais organismos de direitos humanos, é
responsável por tortura não somente aquele que aplica choque elétrico em
sua vítima indefesa, mas também os que comandam, acobertam, incentivam e
são cúmplices deste tipo de ato.
A prisão de José Maria Marin
em território estrangeiro não deve alterar em nada a política de
impunidade sobre os crimes de agentes do Estado. Mas não deixa de nos
chamar a atenção para o descaso em que a questão caiu. O Estado de
Direito no Brasil parece não ter escutado o teor dos relatórios das
várias comissões da verdade recentemente em funcionamento. Estes
documentos comprovaram a estrutura centralizada de repressão política,
mas nenhuma medida de justiça foi tomada a partir deles.
Torço
muito para que o país se orgulhe de si e faça justiça sobre os crimes da
ditadura; que quebre a lógica da impunidade, a qual mantém a ação
criminosa e violenta dos agentes do Estado nas periferias das grandes
cidades; que rompa com a falácia da reconciliação nacional, sob a qual
se justifica a manutenção de um projeto autoritário de país em pleno
funcionamento. Mas creio ser mais fácil o Brasil devolver os 7 x 1 na
Alemanha do que dar qualquer dos passos acima citados.
