INFORMAÇÃO LIVRE

29.5.15

7 A 1 PARA A IMPUNIDADE NO BRASIL

Por EDSON TELES - Via Carta Maior - 

Marin está sendo preso por corrupção, mas ele e seus comparsas de ditadura permanecem impunes pelas graves violações dos direitos humanos que cometeram. 


No final deste mês de maio foi preso José Maria Marin, cúmplice da tortura durante a ditadura militar brasileira. Mas não se assuste: a democracia no Brasil continua a mesma e os militares não vão se aquartelar por isto.

Foram presos na Suíça, junto com o defensor de tortura,  diversos dirigentes da Fifa, a federação internacional de futebol que regula o esporte e organiza os torneio mundiais a cada quatro anos. Sim, a mesma que comandou o estado de exceção dentro do estado de direito brasileiro no ano passado. A acusação, vinda de investigações da polícia norte-americana, indica que Marin e os outros cobravam propinas para cederem direitos de realização e transmissão dos torneios de futebol, inclusive a Copa de 2014 no Brasil. Os casos de corrupção agora denunciados ocorreram quando Marin era presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Entidade dona da seleção brasileira de futebol, recentemente a CBF teve seu contrato secreto de marketing revelado – nele se diz que os jogadores são convocados e escalados no time nacional de acordo com os interesses de venda dos patrocinadores.

Tudo isto parece muito impactante e incrível no país do futebol. Parece ainda pior do que os 7 x 1 para a Alemanha. Mas o que me parece mais grave e, ao mesmo tempo curioso, é termos um participante do esquema de tortura na ditadura sendo preso por corrupção, fora do país, enquanto ele mesmo e os generais e oficiais responsáveis pelas graves violações de direitos humanos ocorridas no país permanecem impunes.

José Maria Marin iniciou sua carreira política junto com o golpe de 64. Já em 1969, logo após o início do AI-5, tornou-se presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Em 1971, virou deputado estadual pela Arena (partido dos militares), um ano após a conquista do tri campeonato mundial de futebol e no mesmo momento em que Dilma Roussef se encontrava presa, após ser torturada nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. Mais tarde, no ano de 1975, Marin cobraria a ditadura sobre os comunistas instalados na televisão pública de São Paulo, a atual TV Cultura. Dentre estes estava Vladimir Herzog.

O atual dirigente da Fifa e da CBF discursou em favor da cassação dos comunistas, conforme registrado nos documentos da Assembleia Legislativa: “faço um apelo ao governador do Estado: ou jornalista está errado ou está certo. Essa omissão por parte da Secretaria do Estado e do governador não pode persistir. Mais do que nunca é necessário agir para que a tranquilidade reine novamente nesta Casa e, principalmente, nos lares de São Paulo”.

Quinze dias depois Vlado compareceu à mesma rua Tutoia, no DOI-Codi, onde tantos brasileiros haviam sido presos, torturados, assassinados e seus corpos desaparecidos. Naquele dia 25 de outubro de 1975, os militares mataram Vladimir Herzog, um dos jornalistas denunciados pelos discurso raivoso de Marin. Não foi engano a defesa e conivência de Marin com a estrutura de tortura no país. Menos de um ano depois, o mesmo deputado da Arena discursava em defesa do delegado torturador Sergio Fleury.

Nas gravações da Assembleia registra-se: “conhecendo seu caráter como eu conheço, não há dúvida de que Sérgio Fleury ama sua profissão; de que Sergio Fleury se dedica ao máximo, sem medir esforços nem sacrifícios para honrar não apenas a polícia de São Paulo, mas acima de tudo seu título de delegado de polícia. Ele deveria ser uma fonte de orgulho para a população de nossa cidade”. Segundo os principais organismos de direitos humanos, é responsável por tortura não somente aquele que aplica choque elétrico em sua vítima indefesa, mas também os que comandam, acobertam, incentivam e são cúmplices deste tipo de ato.

A prisão de José Maria Marin em território estrangeiro não deve alterar em nada a política de impunidade sobre os crimes de agentes do Estado. Mas não deixa de nos chamar a atenção para o descaso em que a questão caiu. O Estado de Direito no Brasil parece não ter escutado o teor dos relatórios das várias comissões da verdade recentemente em funcionamento. Estes documentos comprovaram a estrutura centralizada de repressão política, mas nenhuma medida de justiça foi tomada a partir deles.

Torço muito para que o país se orgulhe de si e faça justiça sobre os crimes da ditadura; que quebre a lógica da impunidade, a qual mantém a ação criminosa e violenta dos agentes do Estado nas periferias das grandes cidades; que rompa com a falácia da reconciliação nacional, sob a qual se justifica a manutenção de um projeto autoritário de país em pleno funcionamento. Mas creio ser mais fácil o Brasil devolver os 7 x 1 na Alemanha do que dar qualquer dos passos acima citados.