Por TEREZA CRUVINEL - Via Brasil 247 -
Se antes da cortina do sigilo ser levanta a lista de
Janot já produziu tamanho estrago político, imagine-se quando o ministro
Teori Zavascki divulgar os nomes contra os quais o procurador-geral
Rodrigo Janot pediu a abertura de inquéritos. Agora estão todos
esperando Zavascki, que promete fazer isso amanhã, uma sexta-feira de
Congresso vazio: pelo menos não haverá retaliações imediatas de terceiro
grau, como a de Renan Calheiros na terça-feira. Enquanto isso os
bombeiros atuam, entre eles o ex-presidente Lula, tentando através de
emissários convencer Renan e Eduardo Cunha que não houve a conspiração
palaciana que os teria “empurrado" para dentro da lista. O fim do sigilo
deve trazer alguma distensão política.
Mas ninguém se iluda: o tempo que vem aí será de vaca estranhando
bezerro, num processo que está apenas começando. Só vamos saber, por
exemplo, se haverá outro grande julgamento político, como o do mensalão,
lá na frente, quando Janot optar por uma denúncia coletiva como a de
Roberto Gurgel, ou por várias denúncias individuais. Neste último caso
os julgamentos se diluirão no tempo, reduzindo as repercussões
políticas.
O levantamento do sigilo, amanhã, jogará luz sobre a fumaceira que
está no ar desde terça-feira. Nem por isso, as coisas ficarão melhores
mas já estaremos tratando com fatos, não com versões ou boatos. A lista
oficial trará elementos que vão fortalecer ou enfraquecer a teoria
conspiratória segundo a qual – na leitura de Cunha e Renan – o Planalto
atuou para que fossem incluídos. Uma suposição que, de resto, ofende o
procurador-geral. A isso ele se refere muito sutilmente em sua carta aos
colegas do Ministério Público, quando diz: “Não guardo o
dom de prever o futuro, mas possuo experiência bastante para
compreender como a parte disfuncional do sistema político comporta-se ao
enfrentar uma atuação vigorosa do Ministério Público no combate à
corrupção. Não acredito que esses dias de turbulência política
fomentarão investidas que busquem diminuir o Ministério Público
brasileiro, desnaturar o seu trabalho ou desqualificar os seus membros.
Mas devemos estar unidos e fortes.” Cunha e Renan o desqualificam
quando dizem que foram empurrados para dentro da lista pelo Planalto
para dividirem com o Congresso os danos sofridos com a Operação Lava
Jato.
Relativamente ao papel de Dilma (ou auxiliares) será estranho que,
tendo poder para “empurrar” os notáveis peemedebistas, não o tenha usado
para tirar da lista petistas como os ex-ministros Gleisi Hoffmann e
Paulo Bernardo (se a inclusão deles também for confirmada).
Renan e Cunha têm experiência suficiente para avaliar que Dilma e seu
governo teriam que ser estúpidos demais para entrar num jogo de alto
risco como este. Um governo com alta necessidade de recompor sua base e
garantir a governabilidade no meio de uma crise política e econômica
estaria brincando na beira do abismo com tal jogada. Na política há
espaço para enganos e autoenganos de todo tamanho mas a lógica não
endossa a teoria conspiratória. Ainda que tivesse havido tal espúria
negociação, Janot só poderia poupar nomes – como fez com Dilma e Aécio –
não “empurrar” pessoas contra as quais não houvesse indícios.
Suposição por suposição, pode-se dizer, com base na experiência dos
anos recentes, que Renan nunca segurou a alça do caixão de ninguém.
Sempre pulou do barco antes que a água subisse. Afastou-se de Collor em
tempo, deixou de ser ministro de FH quando a impopularidade apontou para
a mudança de 2002. Contou com o apoio de Lula e do PT quando enfrentou o
chamado “Renangate”, em que foi acusado de ter despesas de pensão
alimentícia pagas por uma empreiteira. Agora, estaria preparando um
desembarque que o preservaria para novas alianças – já virou herói do
PSDB – e ainda o colocaria no papel de vítima, deslocando-o do círculo
das maldições em torno do PT e do governo Dilma.
O que vem pela frente?
No melhor cenário, PT e PMDB firmam um pacto de convivência e defesa
mútua e a vida segue, mas com muita turbulência, pois o moinho da CPI
vai produzir fatos que vão engrossar os inquéritos agora abertos.
No pior, a situação política desanda para valer e contamina também a
economia, com a inviabilização do ajuste fiscal. E o país pagará caro,
muito caro, pelos erros de sua elite política.
