Por MARCIO POCHMANN - Via RBA -
Neste final de semana, os 20 chefes dos países mais ricos do mundo se reúnem
na Austrália para tratar fundamentalmente da retomada do crescimento da
economia global. Após seis anos do início da crise iniciada em 2008, os
debates ainda não convergiram para o entendimento se a situação atual
reflete apenas uma fase de dinamismo baixo da produção ou se trata mesmo
de uma recessão comparável a de 1929.
Na ausência de compreensão
comum, ganha importância a difusão de análises econômicas cada vez mais
contraditórias. De um lado, os integrantes do pensamento neoliberal que
sustentam o desmonte das políticasexistentes de proteção da produção e
emprego.
De outro lado, os defensores do pensamento não liberal
que alertam para o comportamento das bolsas de valores e mercado
financeiro descolado da economia real. Por conta disso, caberia a
manutenção das políticaspúblicas mais amplas, de reformulação da
governança mundial (papel das agências multilaterais como Banco Mundial e
Fundo Monetário Internacional) e medidas de regulação e promoção do
desenvolvimento em novas bases econômicas, sociais e ambientais.
O
exemplo da ação integrada dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e
África do Sul) serviria de exemplo. Mas para além das interpretações da
crise mundial e do papel das políticas governamentais adotadas, cabe
ressaltar osimultâneo movimento mais amplo de reestruturação econômica
impulsionada mais recentemente. Três evidências disso chamam a atenção
tanto pela rapidez com que ocorrem como pela dimensão estrutural, muitas
vezes sem o devido acompanhamento de todos os cidadãos.
A
primeira evidência encontra-se na consagração de uma nova partilha do
mundo em função do esvaziamento relativo dos Estados Unidos no exercício
de uma ordem unipolar. Em contrapartida, o avanço de um
mundopolicêntrico, com novas regiões exercendo a promoção do
desenvolvimento supranacional, representa no contexto sul-americano a
oportunidade de o Brasil contribuir mais decisivamente na integrado
regional do desenvolvimento em novas bases.
A segunda evidência
corresponde ao fortalecimento do papel do Estado, geralmente associado
ao apoio dasgrandes empresas à competição global. A forte transferência
de recursos públicos às mega corporações transnacionais (bancos e
empresas não financeiras) indica tanto o aprofundamento da concorrência
intercapitalista como a maior competição entre os Estados. A posição
brasileira em virtude disso, de apoiar à reestruturação patrimonial de
empresas privadas nacionais e de estatais acompanha esse movimento na
mesma medida que se busca também fortalecer as oportunidades de expansão
das micro e pequenas empresas.
A terceira evidência, por fim,
localiza-se na concentração de esforços técnico-científicos voltados
para a geração de um novo modelo de produção e consumo menos degradante
do meio ambiente. Isso porque a eficácia das ações públicas que procuram
minorar as emissões de gás carbono por meio da conscientização,
tributação e promoção de alternativas ambientalmente sustentáveis
pressupõe outra base tecnológica para produzir. Ademais das iniciativas
em torno da matriz energética renovável, passa a ter importância a
conformação de uma estrutura bioindustrial que promova a produção
crescente dos empregos verdes.
Neste campo, o Brasil se
destaca por já possuir uma das matrizes energéticas das mais limpas do
mundo, como deter a oportunidade de construir - a partir da exploração
petrolífera do pré-sal - o seu projeto nacional de desenvolvimento que
atenda a perspectiva de inclusão de toda a sociedade. Tudo isso se torna
plenamente possível nos dias de hoje, embora dependa efetivamente de
uma maioria política realmente comprometida com essa perspectiva.
Após
29 anos de democracia consolidada no Brasil, não parece haver o que
possa impedir a consagração de um grande projeto de país soberano,
justo, solidário e próspero. A não ser o obstáculo político de continuar
ousando na direção de utilizar a crise como uma oportunidade para maior
avanço econômico, social e ambiental.
