Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -
Para um procurador do Ministério Público a formidável
operação policial desfechada na sexta-feira (14/11) foi uma forma
apropriada de comemorar os 125 da proclamação da República.
Para um alto funcionário da Polícia Federal, a envergadura da ação
produzirá um estrago tão grande quanto o dia do Juízo Final. Avaliações
corretas: os guardiões da Res Publica, a Coisa Pública, além da
excelência profissional, demonstram uma sofisticação intelectual à
altura. Longe, felizmente, das encenações do tipo Satiagraha.
À revelia dos candidatos que há três semanas se digladiavam com
estatísticas, a nova fase da Operação Lava Jato tem todas as condições
para converter-se em marco das grandes mudanças prometidas ao longo da
campanha eleitoral. Deverá impor-se até mesmo à composição do novo
ministério e comando do parlamento, pautar a própria agenda de reformas e
esvaziar a prematura excitação em torno das disputas de 2016 e 2018.
A tremenda crise hídrica e a prolongada estiagem que castigam parte do
país não impediram que os jatos desta lavagem sejam fartos, fortes e
penetrantes. O diabólico processo de desconstrução de candidatos e
agentes políticos empreendido por estrategistas irresponsáveis durante a
campanha eleitoral deverá prosseguir com redobrada fúria. Era esperado:
só os ingênuos poderiam imaginar que um processo destrutivo e
avassalador como aquele poderia ser rapidamente interrompido com um
premir de botões ou manivelas.
No inesquecível Fantasia de Walt Disney (1940), na fábula
musicada por Paul Dukas, o aprendiz de feiticeiro incapaz de interromper
o processo que deslanchou é protagonizado pelo ratinho Mickey. No
bizantino Brasil Central, os trainees – estagiários – em matéria
de desconstrução foram antas alopradas, incapazes de compreender que a
violência é um processo dinâmico, incontrolável. Instalado, só cede
depois de cumprir todas as etapas e ritos.
Dupla metáfora
Não bastasse o extenso rol de implicações políticas, o Petrolão poderá
acelerar os mecanismos de convergência criminal. No dantesco cenário
mexicano que se descortinou depois da chacina dos estudantes em Iguala,
fica visível a atração das delinquências, o entrelaçamento do
narcotráfico à corrupção política e à corrupção policial para atender a
insaciável malha interesses escusos que se articula nos desvãos do
Estado.
Não chegamos lá, os tentáculos do crime organizado ainda não se
entrelaçaram com os da corrupção política. Falta pouco: no Rio, em
certas intersecções há uma natural aproximação da informalidade com a
ilegalidade. A remessa dos fabulosos recursos obtidos através de
comissões e propinas ilícitas fatalmente acaba por usar os canais e
conexões que levam os ganhos do narcotráfico e da contravenção aos
paraísos fiscais. O universo das malfeitorias se sustenta graças à sua
incrível porosidade capilaridade.
A coincidência do Juízo Final com a festa da República é uma dupla
metáfora que não convém cultivar. Melhor fazer da República uma entidade
sadia, sólida, para sempre distante de tribunais. E, quem sabe,
parlamentarista?



