CARLOS CHAGAS -
Na madrugada de 15 de
novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca ardia de febre em sua
casinha de três quartos e sala, numa transversal do Campo de Santana,
depois Praça da República. Dias antes havia recebido uma comissão de
ilustres republicanos empenhados em aliciá-lo para a causa, mas opinara
que a mudança do regime só deveria acontecer após a morte do Imperador.
Era amigo pessoal de D. Pedro II.
Na noite anterior dois
regimentos e um batalhão aquartelados em São Cristóvão tinham-se
rebelado, ocupando o Campo de Santana, bem defronte ao prédio do
ministério da Guerra. Seus oficiais queriam a destituição do
primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, acusado de pretender
dissolver o Exército, força cada vez mais influente depois da Guerra do
Paraguai.
Os insurgentes, com seus
canhões apontados para o ministério, onde estavam reunidos os ministros,
ressentiam-se da presença de um chefe de prestígio. Alguém lembrou que
quadras adiante morava Deodoro, posto em desgraça e mandado para a
reserva por desavenças com Ouro Preto. Conta a lenda que a mulher do
marechal recebeu os emissários com um cabo de vassoura na mão, tentando
impedir que perturbassem o marido. Deodoro os recebeu e ouviu os boatos
da hora: a ordem de sua prisão estava assinada, além da dissolução do
Exército, que a Guarda Nacional substituiria. Irritado, com a febre
aumentada, fardou-se, disposto a chefiar o motim. Estava fraco, não
conseguiu montar o cavalo posto á sua disposição, embarcando numa
charrete que, passando pela avenida do Mangue, seguiria para os quartéis
em São Cristóvão. No meio do caminho é surpreendido por tropa armada,
até com banda de música, que iria aderir aos sediciosos. Faz meia volta e
dirige-se ao prédio do ministério da Guerra.
Ouro Preto e seus ministros
olhavam pela janela a movimentação dos canhões rebelados, tendo o
primeiro-ministro convocado o Secretário-Geral do Exercito, marechal
Floriano Peixoto, comandante das forças legalistas, por sinal
acantonadas na parte de trás do ministério. Apontando para os canhões,
ordenou que fossem tomados a baioneta pela tropa a seu dispor. Diante
das ponderações sobre dificuldades, afirmou que no Paraguai, em
condições mais adversas, “as peças inimigas haviam sido conquistadas com
arma branca.
Floriano, fleugmático, sentenciou o que aconteceria minutos depois: “É, mas lá nós lutávamos contra paraguaios…”
Deodoro chegou aos portões
do ministério, exigiu que fossem abertos e já montado num cavalo baio,
irrompeu pelo páteo e as escadarias, cercado pela tropa rebelada que
gritava “Viva Deodoro! Viva Deodoro!”
O movimento, no entender do
velho militar, visava a deposição de Ouro Preto. No gesto
característico de seu comando no Paraguai, ele tirou várias vezes o
boné, saudando os companheiros, e gritando “Viva o Imperador! Viva o
Imperador!”
Subiram ao andar onde
estava reunido o ministério, misturado com os republicanos históricos,
alertados para a oportunidade. Ouro Preto não se levanta e escuta as
queixas de Deodoro sobre a perseguição ao Exército. A febre aumentara e o
marechal repetia diversas vezes o argumento de que “nós que nos
sacrificamos nos pântanos do Paraguai não merecermos isso”.
Arrogante, pretensioso e
elitista, Ouro Preto o interrompe para dizer: “olha aqui, marechal,
maior sacrifício do que fizeram nos pântanos do Paraguai estou fazendo
eu aqui ao ouvir as baboseiras de Vossa Excelência!”
Passaram-se poucos segundos antes que Deodoro repetisse tradicional frase castrense: “esteja todo mundo preso!”
De Benjamim Constant a
Quintino Bocauiúva, Aristides Lobo, Rui Barbosa e outros republicanos
que caberiam numa kombi, se kombis já existissem, veio a tentação para
que Deodoro aproveitasse o episódio e proclamasse a República. O militar
hesitou mas cedeu ao argumento de Benjamin Constant: “e mais, marechal,
a República terá que ser governada por um ditador, e o ditador é o
senhor!”
Dizem que a febre passou e
os olhos de Deodoro se arregalaram. A tropa vitoriosa empreendeu um
desfile pela rua Larga e adjacências. Deodoro voltou para casa, caiu em
sono profundo e os republicanos trataram de redigir os primeiros
decretos da recém nascida República. À tarde, foram à casa do marechal,
que pretendeu dar o dito pelo não dito, ou o proclamado pelo não
proclamado, mas cedeu aos apelos da multidão organizada por José do
Patrocínio na porta de sua casa.
A República estava
nascendo. O Imperador, que naquela manhã havia descido de Petrópolis, de
trem, permaneceu na Quinta da Boa Vista, onde recebeu ordens para
exilar-se, com a família. Militares mais exaltados haviam proposto que
fossem todos fuzilados, mas Deodoro reagiu com vigor, ainda mandando que
fosse votada uma verba para família real sustentar-se lá fora. D. Pedro
II declinou…
