Via Blog do Morris -
O mundo virtual já é uma realidade enquanto a privacidade está se
tornando ficção. Não há mais divisão entre trabalho e vida particular, e
seus dados pessoais são vendidos indiscriminadamente. Como ficam as
regras do jogo?
“O limite entre privado e público hoje é um limite móvel”, diz Ronaldo
Lemos, um dos principais responsáveis pelo Marco Civil da Internet.
Ele alerta para os riscos que a cultura da internet traz para a
democracia, mas se revela otimista diante das perspectivas. Nesta
entrevista, defende as leis reguladoras como a grande saída diante deste
panóptico de vigilância perfeita que pode se tornar o mundo
cibernético.
Ronaldo Lemos é advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e
Sociedade do Rio de Janeiro, e professor de Direito da Uerj. Mestre em
direito pela Universidade de Harvard, doutor em direito pela
Universidade de São Paulo e representante do MIT Media Lab no Brasil. É
também diretor do projeto Creative Commons no Brasil e membro do
Conselho de Administração da Fundação Mozilla. Escreve semanalmente para
a Folha e apresenta o programa Navegador na Globonews, focado em inovação.
Existe privacidade na vida contemporânea?
Ronaldo Lemos – Não. O limite entre privado e público
hoje é um limite móvel. Surge uma nova ideia de privacidade: os círculos
de controles. Você tem um custodiante, uma empresa tipo Google ou
Facebook, com quem estabelece uma relação de confiança, e a empresa vai
ser a guardiã daquelas informações. Qual a responsabilidade deste
custodiante? Essas são as regras que a lei pode incentivar.
Hoje quando você acessa um site, muitas vezes acaba acessando 30 outros
que estão coletando seus dados sem seu consentimento. São sorvedouros
de dados pessoais.
Qual o limite ético para a arrecadação das empresas com os dados pessoais?
R.L. – Os dados pessoais são o petróleo da internet.
Grande parte dos serviços gratuitos são pagos com a venda de dados
pessoais. É disso que vivem empresas como Google, Facebook, Twitter e
muitas outras. E também empresas educacionais como a EDX de Havard, que
oferecem cursos incríveis – todas usam como esquema de negócios a venda
de dados pessoais.
A meu ver isso tem que ser conduzido por uma decisão que atravesse os
canais democráticos. O problema é sistêmico. A tecnologia desafia a
democracia a se aperfeiçoar. A sociedade se tornou infinitamente mais
complexa. Ou a sociedade acompanha ou a própria democracia começa a
ficar em xeque. Eu sou otimista, acho que a longo prazo a democracia vai
se expandir com a tecnologia. Como por exemplo com as novas formas de
consulta pública. Hoje mais do que nunca é possível compartilhar a
tomada de decisões públicas entre grupos de pessoas, entre a sociedade
civil.
As relações de trabalho também mudaram.
R.L. – Essas mudanças não vieram para liberar tempo de
ninguém , inclusive acaba a diferença entre espaço de trabalho e espaço
privado. Você não para de gerar valor em nenhum momento. Isso é uma
característica da nossa sociedade hoje. Primeiro precisamos pensar no
impacto disso em nós, indivíduos, se a gente quer isso mesmo, por que só
vai se aprofundar. Outro desafio é que a gente vai ter que responder
coletivamente, a sua decisão individual é irrelevante.
Como ficam os direitos trabalhistas nesse contexto?
R.L. – O direito do trabalho vai ficando desafiado
assim como a democracia. Hoje não tem um paradigma que alcance este tipo
de questão, é difícil dizer até pra quem você trabalha. Quando você
está numa rede social, produz um valor que está sendo apropriado por
alguém. Os paradigmas do direito do trabalho não dão conta da
complexidade. Como reconstruir e repensar isso? A lógica do trabalho e
da vida foi uma das grandes conquistas dos direitos trabalhistas. Mas
hoje você produz 12, 18 horas por dia, ou até dormindo.
O diagnóstico é que leis trabalhistas estão se distanciando cada vez
mais do que se tornou o paradigma do trabalho como aplicação de esforço
humano para geração de valor, por que este valor é produzido de formas
muito mais complexas e abstratas do que as leis dão conta.
O que faltou no Marco Civil, em sua opinião?
R.L. – Primeiro é importante ressaltar que o Marco
Civil foi construído de forma inédita num processo colaborativo. O texto
final aprovado pela Câmara é muito fiel ao texto final originário da
consulta pública. Nisso o Brasil ocupa um lugar singular e inovador.
Nesse sentido os Estados Unidos estão desmoralizados com os casos da
espionagem. O Brasil é hoje exemplo da grande democracia no mundo com a
missão de proteger direitos na internet, estabelecer as regras do jogo.
Agora, para além do Marco Civil, a agenda imediata é a lei de Proteção
dos Dados Pessoais. Nessa o Brasil está atrasado 40 anos. O Marco Civil
trata da questão da privacidade com alguns artigos mas não trata deste
tema exaustivamente e nem da questão dos dados pessoais em si. O Marco
Civil é um avanço mas nem começa a esgotar esse tema.
Por exemplo?
R.L. – Por exemplo a questão de dados sensíveis,
coisas como religião, orientação sexual, o histórico médico, dados muito
sensíveis que merecem uma regulação específica e não há nada que trate
disso.
Inclusive o Brasil já tem uma redação para este tipo de lei, extensa e
longa que foi preparada pelo Ministério da Justiça. O problema é que ela
está parada no Executivo. Argentina, Chile, Colômbia, todos têm. Os
países europeus têm leis muito estritas quanto a dados pessoais.
Qual o grande desafio?
R.L. – O desafio que a tecnologia traz é para as
instituições que foram construídas nos últimos quatro séculos.
Princípios que foram construídos não podem ser jogados pelo ralo. Ter
leis com causas pétreas que não podem ser modificadas é fundamental.
Regras claras e fortes o suficientes para sobreviverem a qualquer tipo
de governo. Não dá pra negociar, transigir com liberdade de expressão e
privacidade.
O ciberespaço pode ser considerado um terreno a ser explorado como
um dia a terra foi? Corremos o risco de surgirem os “latifundiários” e
as “oligarquias” nesse mundo virtual?
R.L. – Hoje existe o fenômeno das superempresas da
internet, e esse fenômeno merece atenção. Empresas como Facebook, Yahoo,
Twitter, Google, e outras. Hoje, algumas delas têm populações
comparáveis a países. O Facebook tem um bilhão de usuários, por exemplo.
As regras são decididas pelo próprio Facebook, e aplicadas para um
bilhão de pessoas.
Que tipo de regulação deve ser dado a essa potência? Isso é um desafio
para a lei e um desafio pro Estado. Muitos acham que devemos combater
fogo com fogo. Como se cada um precisasse saber tudo de tecnologia de
anonimização para se proteger. Mas eu acho que assim não vai funcionar.
A minha visão nesse sentido é a lei. Por isso o Marco Civil é tão
importante, nesse mundo em que a rede pode caminhar para virar uma
ferramenta de vigilância perfeita.
Hoje você sabe passo a passo o que é feito pelas pessoas ao longo de
suas vidas. O que vai permitir que isso seja uma coisa incrível e
positiva é a lei, a única ferramenta para marcar a divisão das águas.
Leis que reforcem princípios construídos e que defendam liberdade de
expressão, privacidade, liberdades civis , individuais, sistema de
freios e contrapesos.
Como está o Brasil em termos de empreendedorismo virtual?
R.L. – Temos várias empresas de capital de risco, tipo a Samba Tech, que começam a decolar. Tem a boo-box, o Buscapé.
O que tem, e aumenta a minha dose de otimismo, é toda uma geração de
jovens brasileiros inspirados por Mark Zuckerberg, que querem a todo
custo empreender. Isso é uma das melhores coisas que acontece no Brasil
hoje. Mas na hora que alguém resolve abrir a empresa esbarra em
burocracias do século 19, enquanto está com ideias do século 21.
Descobre que vai levar 120 dias para abrir a empresa além de uma série
de dificuldades.
É um cenário inóspito para a inovação. E se abrir foi difícil, fechar é
um horror, e isso é péssimo por que as empresas têm que poder falhar, e
poder falhar rápido. E se falhar, não podem ser punidas por isso. Tem
que ter um ciclo muito rápido. No Chile você abre uma empresa em um dia
na internet e fecha com igual facilidade. No Brasil isso não acontece.
Como se muda esse ecossistema?
A democracia da rede encontra uma veia aberta para o liberalismo econômico?
R.L. – A boa vontade com o Vale do Silício está
acabando. A revista Wired no mês passado fez uma crítica quanto à
arrogância destas empresas. É um modelo com defeitos. No Brasil a gente
nem chegou ao estágio dessa crítica. Por aqui ainda é desejável que a
gente tenha um ciclo baseado em capital de risco, com jovens
empreendedores em inovação descentralizada, que é o que gerou o Vale do
Silício. Aqui a gente vive todos os processos ao mesmo tempo, a gente
vive a falta de saneamento básico junto com a falta de capital de risco.
Como visualiza o futuro da mídia impressa? As redes sociais vão roubar esse espaço?
R.L. – Existe uma crise que faz parte de um processo
de transformação. O modelo de negócio pode evoluir. Agora é um momento
de experimentação, é preciso inventar uma nova forma. No caso das mídias
alternativas, como a rede social, quem controla e edita as informações
são algoritmos, expressões matemáticas que ao analisarem o meu perfil
criam uma regra do que eu vou ver. Ora, um editorial que é feito por um
algoritmo também não é bom.
Achar que aquilo vai traduzir a diversidade da esfera pública é um
erro. Confundir feed do Facebook com opinião pública é um erro
crasso. No fim eu acho que é bom ter tudo, vários filtros de informação
ricos. É bom ter TV, rede social, jornal, algoritmo, priorizar o
equilíbrio de forças entre produzir, disseminar e filtrar.
E os bitcoins?
R.L. – Isso me parece algo ultra liberal. Com eles
você tem muito mais facilidade e liberdade para migrar dinheiro de um
país para o outro. Por outro lado, facilita a lavagem de dinheiro. A
internet proporciona coisas interessantes e outras preocupantes. Ela
mudou tudo, mas não como se esperava. Então tem muito entusiasmo, mas
tem muita frustação. As moedas virtuais hoje são uma grande novidade,
mas a tendência é que sejam assimiladas pelo próprio sistema bancário.
*Tracy Segal, para o blog do jornalista Morris Kachan.



