Aécio Neves acrescentou
mais um pronunciamento de crítica violenta. Como orador oficial da
celebração de mais um ano da Inconfidência Mineira, em Ouro Preto, o
candidato vibrou tacape e borduna no governo Dilma e na própria, mesmo
sem citações nominais. Pelo jeito, o combate à corrupção será o mote
principal de sua campanha.
Há quem conteste essa
estratégia, no ninho dos tucanos. Só as próximas semanas revelarão a
eficácia da mensagem moralista, mas o ex-governador poderá frustrar-se
caso não acrescente conteúdo mais popular ao seu discurso. Porque o
combate à impunidade e à roubalheira sensibilizam as elites e o Brasil
que lê jornal. Basta verificar que o próprio noticiário da televisão
pouco espaço dedica aos mal feitos generalizados. Menos por serem
neutralizados por intensa propaganda oficial, mais porque as
preocupações da massa popular são outras.
Claro que o país inteiro
repudia a corrupção, mas o eleitor comum tem sua atenção voltada para os
deficientes serviços públicos, o horror dos hospitais e escolas e a
violência crescente que o faz prisioneiro em sua própria casa. A novela
da refinaria de Pasadena não chega a entusiasmar o cidadão menos
favorecido, por sinal a imensa maioria da população.
Torna-se necessário que
Aécio amplie o leque. Na década de sessenta , no século passado, Jânio
Quadros conseguiu empalmar a opinião pública e a presidência da
República com um samba de quase uma nota só, prometendo botar os ladrões
na cadeia. A classe média dominava o eleitorado. Hoje os tempos são
outros. Ampliou-se o espaço do proletariado, que se rejeita a corrupção,
preocupa-se muito mais com sua própria sorte.
O que pensa o ex-governador
de Minas fazer diante da carência de habitações? Em matéria de
transportes coletivos, qual sua solução para enfrentar a multiplicação
desvairada de carros de passeio? A infraestrutura rodoviária, mesmo se
funcionasse, não deveria ser compensada por profundos investimentos em
ferrovias?
Dizem os tucanos otimistas
estar em elaboração amplo programa de metas que Aécio anunciará quando
da convenção do PSDB que sagrará seu nome. Quer dizer, em julho. No
mínimo, o candidato perde tempo, ou melhor, utiliza apenas parte de seu
tempo. Fustigar a corrupção é imprescindível, mas há outro universo a
explorar. Precisamente aquele que produz mais votos. Talvez pelo vazio
até agora registrado é que as pesquisas não revelem mudanças.


