Via Sul 21-
Dez entre as dez famílias indígenas que ocupam a rua dos Andradas, em
Porto Alegre, vendendo cestinhos de Páscoa, vivem do artesanato o ano
todo. Mas é nesta época que eles mais faturam: são dois meses de
preparação, no mínimo, para confeccionar algo entre 350 e 500 cestas de
cipó e taquara, que são vendidas na semana que antecede a Páscoa. O
trabalho é familiar e a arte passa de geração à geração — e os índios
crescem em torno do entrelaçar dos cestos e balaios o ano todo.
Já na metade de janeiro, a família de Lucas Nascimento começou a
trabalhar nas cestas de páscoa. Da tribo kaigang, eles moram no bairro
Jardim Planalto, zona norte da cidade, e passam o ano vendendo balaios e
cestos no brique da Redenção aos domingos. Mas é da Páscoa que o maior
ganho da família vem: “O que a gente vende em um mês no brique, vende em
um, dois dias aqui no centro”, conta o jovem pai de 27 anos.
À frente do trabalho estão Lucas e sua esposa — que levam entre 15 e
30 minutos para fazer um cestinho. Mas os dois filhos pequenos correm
pela rua, acompanhando o trabalho dos pais. Todos os dias, eles voltam
para casa à noite levando o que restou da mercadoria amarrada nas
costas. “Mas nem sempre sobra”, conta Lucas. Isso porque, morando na
cidade, eles têm a chance de se preparar melhor, pensar em quantos
cestos são capazes de vender, e levar à rua dos Andradas apenas o
necessário.
Mas nem todas as famílias têm esse luxo, e muitas delas vêm de longe.
Esse é o caso de Ezequiela da Silva, de 24 anos. Ezequiela, também
kaigang, veio com a família de Alto Recreio, noroeste do estado, onde
vivem. Natural de Nonoai, é a primeira vez que Ezequiela visita a
capital gaúcha. “A gente sempre vende lá por perto de casa, em Passo
Fundo, Carazinho”, conta. Sobre a cidade grande, Ezequiela ri. É muito
grande? “É, é grande”. É barulhenta? “Muito. O meu filho tem medo dos
aviões quando eles passam por cima”.
Para a estadia em Porto Alegre, a família de Ezequiela conseguiu
garantir um espaço em um galpão organizado pela Funai (Fundação Nacional
do Índio) próximo ao Gasômetro, onde as famílias indígenas vindas do
interior podem ficar durante a semana que antecede o feriado mais
rentável. As 500 cestinhas que eles trazem de suas cidades ficam num
quarto alugado em uma casa a poucos metros da rua dos Andradas, que é
pago com parte do dinheiro que eles conseguem ganhar na semana –
pagamento adiantado com as vendas dos balaios durante o ano.
Franciane da Silva, de 15 anos, de origem Guarani, vem com a família
da zona sul da cidade. Com as centenas de saquinhos de estopa usados na
decoração das cestas, o que resta para a família é dormir pelo centro da
cidade mesmo. Depois das 20h, quando o movimento começa a cair, os
lençóis onde estão distribuídos os cestinhos e as estopas dão lugar aos
colchões e barracas, onde ela e seus seis familiares dormem. Ela disse
que não tem medo. “É mais fácil para a gente dormir aqui”, garante.
Terminada a temporada da Páscoa para os índios na sexta-feira, eles
voltam para casa, levando o que sobrou do mostruário. “Se está
estragado, a gente joga no lixo”, diz Lucas. Apesar de fazer a Páscoa de
muitos porto-alegrenses, eles ficam de fora da celebração cristã: “A
gente almoça em família, mas é sempre assim”, conta o kaigang.
Na casa de Ezequiela, as crianças devem ganhar um docinho – mas
porque muita gente dá para eles. “As pessoas passam e dão. A gente não
compra. Eles são pequenos para entender.”
As condições para receber os índios na rua dos Andradas poderiam ser
melhores, mas eles contam com pouco apoio. Nem mesmo a infraestrutura é
garantida pela cidade – são eles que levam suas cadeiras de praia e
barracas para o centro. Lucas diz que seria bom ter ajuda para carregar
as coisas, ou um espaço para guardar o material. “É tudo muito caro”,
comenta.



