CARLOS CHAGAS -
Por conta de menos de cem manifestantes postados de forma pacífica
defronte à catedral do Rio, a Arquidiocese local cancelou a encenação
da Paixão de Cristo, na quinta-feira, a Vigília Pascal, de sexta para
sábado, e a missa da Páscoa, ontem. O cardeal D. Orani Tempesta não
explicou por que, imaginando-se ter sido por excepcionais razões. Foi
quebrada a tradição de muitas décadas.
Trata-se de um fato inusitado que só encontra paralelo, por
coincidência, na Semana Santa de 1964, quando, dez dias antes do dia
31, os padres da igreja da Candelária trancaram as portas para impedir a
entrada de marinheiros recém-anistiados pelo presidente João Goulart
por conta da rebelião contra o ministro da Marinha. O grupo ia pela
avenida Presidente Vargas, do Palácio dos Metalúrgicos ao Arsenal de
Marinha, quando seus lideres quiseram agradecer a Deus pelo movimento
não ter redundado em sangue. Ao tentarem entrar, foram repelidos com o
grito de “comunistas não rezam aqui”.
Será que os sem-teto postados em frente à catedral, com mulheres e
crianças, ouviram coisa parecida? Eles haviam sido expulsos do prédio
onde se tinham assentado e, sem ter para onde ir, acamparam em terreno
da catedral. Poderiam até ter participado das cerimônias sacras, mesmo
sujos, famintos e mal vestidos. Faz tempo que o comunismo saiu pelo
ralo, não se encontrando outra explicação a não ser de que a péssima
condição humana do grupo feriu os sentimentos do cardeal.
Aguarda-se uma explicação da Arquidiocese, lembrando-se que no
intervalo entre os dois episódios a Igreja evoluiu do apoio inicial ao
golpe de 64 a uma posição de resistência fundamental à ditadura e à
adoção de mil posturas em favor dos pobres e oprimidos. Na mesma hora em
que no Rio eram canceladas as cerimônias sacras, no Vaticano o Papa
Francisco lavava e beijava os pés de infelizes e humildes irmãos
despojados pela sorte.
NÃO TINHAM OUTRO LUGAR?
Quem passou pela Esplanada dos Ministérios neste feriado prolongado
terá imaginado se o governo mudou-se para outro lugar. Porque o número
de barracões plantados no gramado, sob os mais diversos pretextos,
transformou profundamente a paisagem. E terá deixado para a limpeza
urbana toneladas de lixo e de detritos. Não teriam outro lugar para
comemorar o aniversário da cidade e o sacrifício de Tiradentes?
