CARLOS CHAGAS -
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| Magalhães Pinto, Castelo Branco e Carlos Lacerda [1965]. |
“Chegamos à estranha situação de que, no governo, os que decidem não são votados, e os que são votados não decidem”.
Tome-se a presidente Dilma, reeleita em outubro passado. Entregou a
economia a um banqueiro cujas iniciativas jamais foram referidas nos
palanques onde Madame garantiu seu segundo mandato.
“O governo demonstra renitente e impenitente incapacidade para
compreender os problemas políticos revelados pelos que se supõem capazes
de resolvê-los”.
Nada se ajusta mais a essa sentença do que a aceitação, pela
presidente Dilma, da redução de direitos trabalhistas adotada faz pouco,
decisão rejeitada por todas as centrais sindicais e mais a torcida do
Flamengo.
“Todos reconhecem em V. Excia uma liderança de qualidades
excepcionais, que exerce extraordinária influência nas bases do partido,
mas os processos dialéticos destrutivos que costuma empregar contra
seus adversários não podem ser aplicados contra seus próprios
companheiros”.
Essa análise serve, sem tirar nem pôr aos comentários do Lula em
recente reunião com religiosos, quando demoliu a sucessora de forma
inapelável. O ex-presidente utiliza sua óbvia liderança para destruir o
governo atual.
“Jamais se viu tamanho libelo infamatório contra a representação do próprio partido”.
De novo o comentário aplica-se ao Lula, e também a Dilma, quando
sufocaram a indignação dos companheiros frente à política econômica, na
recente reunião do V congresso nacional do PT.
“O governo tornou-se impopular este ano. Será popular quando vierem as eleições?”
A indagação atinge a presidente e seu antecessor por conta das
recentes pesquisas que só indicam queda vertiginosa em seus índices de
aprovação.
Poderemos acrescentar a esse elenco de frases aspeadas muitas outras
de igual atualidade, como: “Candidato invencível para uma eleição que
não vai haver...”; “a ovelha negra não faz parte do rebanho”;
“assistimos a um romance de amor e de ódio”; “o bom senso, que lhe
falta, e a inteligência, que lhe sobra”; “entrega um passaporte para o
desconhecido”; “vendo antes, dou a impressão errônea de ver demais”...
Fomos encontrar a autoria de todos esses vaticínios e críticas entre
aspas formulados há exatamente 50 anos, em 1965, na correspondência
enviada por Carlos Lacerda ao presidente Castello Branco, quando o então
governador da Guanabara tentava salvar sua candidatura presidencial,
logo depois atropelada inexoravelmente pelo golpe militar. Aqui para
nós, nada como o passado para nos orientar, porque se ele não nos diz o
que fazer, aponta com rara precisão o que evitar...



