Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -
O
Estado brasileiro está estraçalhado desde o início da temporada
eleitoral do ano passado, portanto há cerca de um ano. A cada dia que
passa aumentam os fracionamentos, e isso a tal ponto que, hoje, todos
são adversários de todos.
A expressão, na verdade, é maior: In tota fine erga omnes et omnia, “para todos os fins, a respeito de todos e tudo”.
No país dos bacharéis e cartórios, uma sentença latina tem o mágico
efeito de dirimir qualquer conflito, litígio e polarização. O Estado
brasileiro está estraçalhado desde o início da temporada eleitoral do
ano passado, portanto há cerca de um ano. A cada dia que passa aumentam
os fracionamentos, e isso a tal ponto que, hoje, todos são adversários
de todos: sumiram aliados, coligados, sócios e até possíveis cúmplices
(assustados com a epidemia das delações premiadas).
O brasilianista James Green, com quarenta anos de estudos e vivências em nosso país, disse na sexta-feira (19/6) ao Globo
que nunca viu o país tão dividido e conflagrado. E tão perplexo. Em
outras palavras: ninguém se entende e ninguém entende o que se passa.
Batizada de “Erga Omnes”, Contra Todos, a 14ª fase da Operação Lava
Jato, fiel ao significado de que a lei vale para todos, prendeu na
sexta-feira a maior coleção de figurões do mundo empresarial (doze) com
base em evidências de operações fraudulentas que começaram na Petrobras
há mais de dez anos e transbordaram para áreas e obras afins.
Cólera súbita
É possível que o inédito rigor da lei, seu belo enunciado em latim e
nossa conhecida veneração pela retórica sejam capazes de minorar o clima
de desavenças que minam progressivamente instituições, posturas e
códigos. Mas também é possível que a sede de justiça agregada à dinâmica
da insensatez intoxique ainda mais o ambiente.
Convém lembrar sempre que não estamos isolados numa confortável
academia fruindo estimulante troca de percepções filosóficas. Estamos
enfiados numa penosa trincheira e enfrentando o estresse de uma
acabrunhante crise econômica, índices inesperados de desemprego e um
aumento inaudito da violência cotidiana. Parece exaurida nossa apregoada
capacidade de dissimular e disfarçar mazelas e maus instintos.
Novos costumes e novas tecnologias com novos mimetismos alimentam um –
até agora – impensável estoque de agressividade. Modalidades
alienígenas rapidamente assimiladas e disseminadas sugerem um recorte
antropológico bem distinto daquele que se imaginava.
Evidentemente não foi efeito da notícia da chacina num templo batista
negro em Charleston, na Carolina do Sul (EUA), mas quase
simultaneamente fomos surpreendidos com uma inesperada cólera religiosa:
no Rio, recentemente, uma menina de 11 anos, vestida para um ritual de
candomblé em casa de sua avó, foi apedrejada na rua. E também no Rio, na
sexta-feira (19), foi descoberto o assassinato do médium Gilberto
Arruda, de 73 anos, famoso pelos tratamentos espirituais e a caridade
que oferecia no Lar Frei Luiz.
Para todos
Já tivemos pastores pisoteando imagens de santas na TV, mas estes
incidentes contra crenças religiosas sincréticas e tão arraigadas na
espiritualidade brasileira podem ser os primeiros sintomas de uma
intolerância secularmente reprimida, liberada pelas pressões do momento.
A lei é para todos – esta verdade saiu num dos jorros fétidos do
petrolão e com ela teremos que conviver para sempre. Somos finalmente
iguais.



